sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Twitter reinventou o degredo

Esse mês, curiosa e providencialmente antes da eleição, eu perdi minha conta no Twitter. Foram 10 anos, quase 70 mil seguidores, alguns milhares de mensagens, amizades, desavenças e uma longa convivência com quem me lia.

A justificativa da rede social foi que meu perfil era usado para "promover discurso de ódio". O teor do discurso? Durante um desses debates com essa geração que usa fotos de diva pop no perfil e abusa de memes da Gretchen, eu disse que o cantor Pablo Vitar não é e nem jamais será mulher e que lugar de homem de peruca não é o banheiro feminino.

Tentei recuperar a conta pelo menos oito vezes e em todas elas recebi uma mensagem automatizada dizendo que a conta não seria devolvida e que, caso eu tentasse retornar com outra conta, seria banido novamente, já que o banimento é "perpétuo".

Fim.

Como não sou nenhuma celebridade ou me considero importante demais, relutei em contar essa história, mas creio que é importante para mostrar alguns problemas com isso.

O primeiro é que alguém pode me dizer: ah, mas o Twitter é uma empresa particular, logo aceita quem quiser ali. Tenho que concordar, mas há diferenças entre uma gigante da internet e um restaurante ou uma loja de roupas. Sempre posso ir comer em outro lugar e comprar cuecas em outra freguesia, mas o Twitter hoje não é mais uma simples rede social.

Trata-se de uma plataforma onde órgãos do governo se comunicam com o cidadão, a imprensa utiliza para retratar a sociedade, serviços e atendimentos ao consumidor são concentrados, enfim, é muito mais do que mera troca de mensagens.

Por isso é que, ainda que isso cause pruridos em muita gente, algum tipo de lei ou carta de direitos deverá ser imposta às gigantes da tecnologia. Não se pode deixar um fluxo global de informações à mercê dos caprichos de justiceiros sociais.

O outro problema é o viés que isso causa. Infelizmente, o Twitter é usado para determinar o que "o brasileiro" ou "o americano" ou, em menor escala, "o europeu" pensa. Como "discurso de ódio" é um conceito muito abstrato - eu, por exemplo, acho que dizer que "Jesus era socialista" é uma afronta aos cristãos de todo mundo - esta desculpa esfarrapada acaba sendo usada como justificativa para que os psicopatas de esquerda do Vale do Silício suprimam a opinião de uma larga fatia da sociedade.

No fim, completado o expurgo, quem entrar ali vai achar que as maiores preocupações do brasileiro são o beijo gay na novela, o novo namorado gay do ator gay da novela, o último hit da cantora trans e qual seriado do Netflix "lacra" mais.

Desemprego, contas, formação das crianças, etc., isso é coisa de reacionário que merece ser banido.

Perpetuamente.

Isso nos séculos XV a XVIII se chamava degredo e é algo tão odioso que somente ditaduras, milícias e o tráfico de drogas aplica sob seus domínios. E agora o Twitter.

Percebem o tamanho do problema?

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Vocês erraram, admitam logo

Convencionou-se dizer que a facada que levou em Juiz de Fora "salvou" a candidatura de Jair Bolsonaro, que "já vinha caindo" em decorrência dos ataques que sofria. Mas a certeza que eu tenho é que aquela facada que o Bolsonaro levou, salvou a carreira e a reputação de muito analista político.

Desde o início do ano o que se dizia, de forma solene e definitiva, nesta ordem, é que Bolsonaro não conseguiria um partido, não conseguiria a candidatura, não conseguiria passar de um determinado teto e perderia para qualquer um num eventual segundo turno.

Um a um estes "argumentos" foram sendo derrubados e a teoria do teto, entre outras, desabou sobre as cabeças de seus arquitetos.

Hoje a realidade é que o deputado tem vaga no segundo turno e todos os que preconizaram sua queda desde janeiro erraram. Erraram feio porque, de suas torres de marfim, não conseguiram captar o movimento que acontecia nas ruas, no meio do populacho que pretendem guiar com suas mentes iluminadas.

Dito isto, alguns se dedicaram à campanha aberta, mentindo, espalhando fake news, repassando narrativas dos adversários, vale tudo. Não se iluda: a imprensa prefere o PT ao Bolsonaro, simplesmente porque o PT dá lucro.

Os demais, que ainda pretendem sustentar a máscara da isenção por algum tempo, dedicam-se à duas atividades: cuspir 20 teorias por minuto, para ver se acerta uma e "provocar" eleitores do Bolsonaro para caçar cliques e bater a meta.

Mas a verdade é apenas uma: vocês erraram, admitam.

Ainda que aquela facada tenha oferecido um excelente bote salva-vidas para tirar suas reputações desse Titanic.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O fim do baile de máscaras

Falei aqui outro dia e repito: não existe análise política isenta. Simplesmente não existe.

É impossível despir-se de todos os conceitos na hora de falar sobre algo que diz respeito à sua vida e ao futuro dos seus filhos e netos. Quem afirma que faz isso é cínico, pilantra ou se engana.

A reta final de qualquer campanha eleitoral é frenética, mas neste curioso ano de 2018, frenético é tudo o que aqueles que desejam alguma paz gostariam que ela fosse. Este ano tudo é mais, tudo beira simplesmente o insuportável e, justamente por isso, máscaras vão caindo, como que seus portadores desejassem respirar melhor.

Começamos com o deputado Bolsonaro sem partido. Riam e o chamavam de "sem-teto", até que aplicou um passa-moleque num DCE metido a think-tank chamado "Livres" e aportou no PSL.

Em janeiro/fevereiro o deputado estava rondando os 15% nas pesquisas. "Vai cair assim que o carnaval passar e o povo começar a pensar política a sério", diziam nossos analistas embasados, estivados.

O reinado de Momo passou e Bolsonaro já roçava os 18%. Calma, diziam, menos para o público - que estava calmíssimo - e mais para si próprios, assim que a pré-campanha tomar corpo, ele desidrata.

Os meses passaram e os 20% já eram uma realidade. Mas nada disso importava, porque assim que as coligações se formassem, a realidade iria se impor e Bolsonaro encontraria seu "teto".

Seria a "máquina", a "estrutura", as prefeituras, os diretórios, a "capilaridade", qualquer coisa, mas fatalmente aquele aventureiro seria reduzido ao patamar de um Pastor Everaldo ou Cabo Daciolo, e o esquemão conduziria a eleição como sempre: o duelo de fancaria entre os azuis emplumados e os vermelhos enraivecidos.

Só tinha um porém: o eleitor.

O "teto" saiu dos 20% e começou a se aproximar dos 25%, quando a facada já histórica de um terrorista de esquerda embolou tudo.

A primeira "narrativa" dos sabes-tudo previa uma ascensão meteórica no rastro de uma onda de solidariedade e um tombo monumental, assim que a onda passasse. Não veio a "super-ascensão".

Opa! Aí está o teto que nem a facada furou!

Nada. Erraram de novo e, assim como vem ocorrendo desde janeiro, a candidatura de Bolsonaro vem crescendo de forma lenta, constante, impávida. Quem entra no seu "bonde" parece que não descer mais (78% de certeza entre seus eleitores comprova isso) e os que ainda observam tudo pelo caminho vão subindo aos poucos.

Chegamos a 20 dias do pleito com ele já ultrapassando os 30% e dois fatos curiosos: o Ibope resolveu só testar opções de segundo turno envolvendo o nome do Bolsonaro e consultorias começam a analisar uma ainda "improvável" vitória já no primeiro turno.

Convenhamos que para alguém que seria "devolvido à sua merecida insignificância" pelos "profissionais" (Alckmin, Dias, Ciro, Lula), ele foi até longe demais. E não é só isso: seja qual for o resultado, um deputado de "baixo clero" sairá dessa eleição com um partido, uma boa bancada, estrutura e um movimento nacional jamais antes visto no Brasil. 

Só que o eleitor, cansado do esquemão e seus "cientistas políticos" o dizendo o que fazer, quer mais.

E Bolsonaro segue crescendo. Daí que a "análise isenta e imparcial" virou torcida, conselho aos seus adversários, pedidos encarecidos para que o eleitor mude de ideia, fake news variadas e uma constante hostilidade contra essa "gentalha" que cisma em "não ouvir quem entende".

"Os xucros, burros, fascistas, mal educados, fofoqueiros, etc.". Essa gente que, ao que parece, vai eleger o Bolsonaro presidente caso nenhuma fraude ou armação atrapalhe o que parece ser o curso dessa história.

Por isso vocês até podem achar ruim, mas eu acho auspicioso que vários "analistas independentes" que apenas "listam fatos e analisam conjunturas", sempre "sem paixão", estejam se entregando de corpo e alma ao coscuvilho politiqueiro nestes dias.

Ninguém está traindo nada, eles nunca foram isentos porcaria nenhuma, isso não existe, apenas as máscaras estão caindo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Esquinas que desaparecem


Um dos muitos marcos do Rio de Janeiro, assim como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar  ou a praia de Copacabana, é a esquina.

Carioca adora uma esquina, essa curva urbanística onde ruas e pessoas se encontram.

Bares, padarias, lojas, lanchonetes ou apenas pontos de referência, uma a uma estão sumindo no meio da crise que dissolve a cidade como sal de fruta jogado num copo d'água para tratar a ressaca de anos de festa desregrada, gastança inconsequente e desprezo pelo futuro. 

E no lugar de vibrantes esquinas, com o vai-e-vem e o burburinho característico das cidades que vivem, calçadas cheias de moradores de rua, janelas escondidas por tapumes, marquises abandonadas e a melancolia de ajuntamentos urbanos que apenas existem. 

Menos uma butique aqui, uma sorveteria ali, um restaurante mais adiante, um cinema de rua lá longe, e o Rio de Janeiro vai se tornando o retrato exato das suas próprias escolhas. 

domingo, 16 de setembro de 2018

O isentão é um desonesto

Não existe análise política isenta. Ponto.

Quem te disser que faz isso não é necessariamente um pilantra, mas está se enganando e te enganando.

Toda análise política tem lado e o quanto antes o cidadão entenda e assuma isso, menos ele faz papel de ridículo e precisa viver se explicando.

O que diferencia um analista sério de um malandro é a admissão de seu lado, até para que o leitor possa dar o peso que preferir ao que está dito.

E o que diferencia um analista sério que admite seu lado, de um mero cabo eleitoral ou fanboy, é saber criticar o que deve.

Isenção de fato em relação ao que você diz sobre o grupo político que apoia é isso: quando erram, diga que erraram, muito porque você vai preferir que acertem logo.

Quando acertarem, esmiúce os acertos, para que aprenda com eles e acumule bagagem para o futuro.

Mas não banque o isento, falando coisas "sem paixão", porque isso não existe.

Você apenas fica ridículo interpretando esse papel que nem um canastrão de novela.

Não se iluda: todos percebem, só você acha que engana alguém.