quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O mito da remoção das favelas

Cada temporal que cai sobre o Rio de Janeiro leva bem mais do que lixo pelas correntezas imundas das enchentes que causa, leva também muitas vidas. Vários mortos, outros vários feridos, milhares de desabrigados, sua grande maioria habitante das muitas encostas da cidade.

O mesmo relevo exótico que presenteou o Rio com uma beleza natural que encanta qualquer um, também cobrou seu preço com a falta de espaços urbanos e com a utilização deste relevo para um processo de favelização que terminou por roubar em muito esta mesma beleza.

Favelas são não apenas bolsões de miséria, sujeira, áreas sujeitas ao avanço do crime a reboque da ausência do estado. Favelas são horrorosas esteticamente. Substituem-se árvores e vegetação nativa por barracos, vielas, biroscas, lixo.

A tal regra que impede a construção acima da "Cota 100" (acima de 100 metros) é jogada no mesmo lixão em que os ratos passeiam por cima.

E sempre que uma remoção, ainda que mínima, é tentada, logo aparecem as ONGs, os defensores da favelização, a justiça garantindo liminares, os demagogos de plantão e toda sorte de gente interessada em manter aquela chaga aberta na cidade.

Mas quando voltam as chuvas, tudo desaba e as pessoas são vitimadas, essa mesma gente corre para perguntar por que o poder público nada faz, como é que aquela situação foi permitida.

Há mais ou menos 50 anos, após outro temporal que também destruiu a cidade, alguns urbanistas elencaram diversas soluções para que o Rio de Janeiro amenizasse seus sofrimentos com as chuvas.

Entre limpeza e canalização de rios, ampliação do sistema de captação das águas e outras sugestões, estava a remoção total das favelas e o reflorestamento das encostas. No entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas existia um desses amontoados de barracos que foram removidos. Imagine hoje a lagoa com uma Rocinha no seu entorno.

Não seria uma lagoa, mas um penico.

Imagine como seria um dos cartões postais da cidade hoje se aquela favela ainda estivesse ali. Infelizmente esse tipo de ação parou. A demagogia não só fez com que sucessivos governos deixassem de combater essas invasões como também passassem a estimulá-las.

As pessoas invadem uma área, constroem barracos, destroem a natureza, alguns fazem gato de luz, de net, de água e no final são premiados com a posse do terreno e com algum PAC, que vai urbanizar (leia-se maquiar) todo aquele caos incorrigível e ainda ganham internet Wi-Fi grátis de brinde.

O contribuinte que pague a sua dívida histórica que nunca acaba.

A solução verdadeira, que é a remoção total e reassentamento em outras áreas da cidade, é satanizada por todo lado. "Vão morar aonde?", "Vai botar essa gente toda em que lugar?".

Ora, amigos. Com certeza não será em Ipanema, no Leblon e nem em Copacabana. Mora nesses lugares quem pode. Eu mesmo não moro em nenhum desses bairros assim como muita gente que não quer arcar com os custos da habitação ali também não.

Mas nem por isso levantei um barraco à beira-mar, na esperança de darem posse depois.

E assim tem que ser com quem mora nas favelas. Vão morar aonde podem, aonde há espaço. O poder público, se fosse sério, colocaria transporte público de qualidade 24 horas por dia nesses locais de reassentamento e a mobilidade estaria garantida, assim como a qualidade de vida de toda a cidade.

Comércio surgiria, a ocupação urbana se espalharia e a cidade poderia respirar melhor.

Não são soluções fáceis, é claro. Mas são bem menos custosas do que as vidas que se perdem de vez em quando nesses desabamentos e do que o caos urbanístico.

Sem contar que uma cidade favelizada é feia, qual é o problema em dizer isso? Fingir que aquele ambiente é "de raiz" ou "autêntico" por si só não te torna uma pessoa melhor, apenas um idiota cooptado pelo politicamente correto e pelo coitadismo.

E as únicas coisas que se colocam entre uma cidade melhor e isso que temos hoje é a caça de votos fácies, o lucro que o crime e a informalidade proporcionam, o caos onde prolifera a desordem.

Convenhamos, nenhum destes é um bom motivo.

Na foto o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas antes e depois da remoção da favela que existia ali até os anos 1960.



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