domingo, 26 de janeiro de 2014

Discordar sem odiar

Difícil encontrar um brasileiro alfabetizado (e alguns até não alfabetizados) que não conheça a frase de Nelson Rodrigues "toda unanimidade é burra".

Um dos maiores frasistas do mundo, duvido muito que o mestre realmente acreditasse nisso ou que desejasse dar ao brasileiro mais um desses chavões que encerram discussões, ao estilo de "política e religião não se discute".

Nelson gostava da frase de efeito, provocativa, afinal de contas se todo mundo concorda que toda unanimidade é burra, isto não deixa de ser outra unanimidade.

Mas vamos em frente.

Algumas unanimidades, pelo menos algumas, são mesmo burras (a militância do PT está aí para não me deixar mentir). Sem contar que a busca obsessiva por um unus animus engessa o debate, emburrece mentes, tolhe avanços.

Se eu gosto de verde e você de azul, excelente, sinal de que não somos daltônicos e nem dois robôs programados para ver tudo igual. Pode ser que conversando a gente descubra que adora o laranja ou que detestamos igualmente o vermelho.

Só que as pessoas, e especialmente os brasileiros, não sabem conviver com isso.

- Discorda de mim? Vou te denunciar, vou te deletar, vou espalhar por aí que você votou no Haddad!
A internet deu total vazão a esta hipersensibilidade ao contrário. Amizades se desfazem, pessoas que nunca se viram se odeiam, gente que pensa igual a mim em praticamente tudo diz por aí que eu sou um babaca só porque ela gosta de funk e eu não, porque eu prefiro frio e ela, calor.

Nos tornamos uma sociedade infantilizada, mimada, sempre procurando PROIBIR o discurso do outro ao invés de refutá-lo, sempre querendo interditar, fechar os ouvidos, preferindo "nem ver".

E assim lucra quem vive de criar divisões, quem tem por função não deixar que mais pessoas acordem e vejam o atoleiro moral, político, cultural, intelectual e até mesmo afetivo em que nos encontramos.

Contrariando Nelson, ou talvez compreendendo melhor o que ele quis dizer, afirmo que nem toda unanimidade é burra, só aquelas perseguidas e construídas por burros.

É possível discordar sem odiar.
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