sábado, 10 de agosto de 2013

A fábula da meia-entrada - Publicado originalmente em 10 de agosto de 2013

Outro dia estava com uma amiga que cursa mestrado em Antropologia (cada louco com a sua mania) e ela tentava comprar um desses ingressos caríssimos de uma festa rave. Como ela tem direito a meia-entrada, apresentou a carteira do curso e pediu o desconto de 50%.

A mocinha que vendia os ingressos nos atendeu com um sorriso dizendo "o ingresso custa 150 reais". Minha amiga então entregou 75 reais para a dita-cuja que replicou "não, R$ 150,00 já é a meia".

Aí minha amiga estranhou, pois no flyer da festa dizia que o ingresso custava 150 reais, dito isso, a moça explicou "é que fizemos uma promoção especial e como os ingressos custariam 300, resolvemos estender a meia-entrada para todos e aí ficou em 150, está aqui o regulamento" e mostrou o tal papel que dizia exatamente o que ela acabara de explicar.

Legal, né? Não. Tenho percebido isso de forma cada vez mais frequente em vários shows e eventos.

Os organizadores já esperando a enxurrada de carteirinhas falsas (qualquer um tira uma carteira de estudante em 2 dias, sem precisar frequentar nem cursinho de inglês) colocam o preço do ingresso nas alturas e aí praticam na tal meia-entrada o preço que provavelmente eles consideram justo (ou necessário para viabilizar o negócio e tirar algum lucro).

A tal festa foi mais descarada nesta prática apenas, mas isso acontece toda hora.

Porque vejamos: qualquer show internacional que aconteça no Brasil cobra preços inteiros que vão de 150 a 250 reais (arquibancada ou pista comum) até uns 300 a 500 reais (cadeiras, camarotes e as malfadadas "pistas VIP", uma excrescência que divide uma pista em primeira e segunda classe).

Por melhor e mais na crista da onda que esteja um artista, é inconcebível que o ingresso de um show custe 1/3 (ou mais, dependendo da localização da entrada) do salário mínimo do país.

Ainda se pensarmos nos preços da meia-entrada, os preços que se praticam no Brasil são imorais, mas com essa marotice dos organizadores a coisa fica pior ainda.

O mesmo acontece em cinemas. Alguns chegam a cobrar 18 a 20 reais para as entradas inteiras, certamente já pensando também nos tios, mães e pais que chegam ali com carteira de secundarista para assistir um filme.

Que a UNE é uma entidade aparelhada por partidos e inútil sob vários pontos de vista é uma opinião da qual compartilho totalmente, mas o benefício da meia-entrada é algo interessante, tanto para estudantes quanto para os maiores de 65 anos, pois nessas épocas das nossas vidas ou não podemos trabalhar porque precisamos estudar ou então já nos aposentamos e a renda cai vertiginosamente.

Mas você precisa fazer isso de forma a não inviabilizar o negócio, já que não se pode tomar de um artista metade do que ele ganharia sem que haja um mínimo de controle, de critério na concessão do desconto e sem que haja um limite de ingressos destinado à meia-entrada que garanta o seu lucro.

O ponto disso tudo é que no Brasil o círculo vicioso é uma constante. Cobra-se preços absurdos e as pessoas recorrem à fraude da carteirinha de estudante, aí os estabelecimentos culturais e organizadores aumentam ainda mais o ingresso para compensar as perdas que têm com a prática e todo mundo finge que está tudo bem.

Fazem vista grossa tanto para o problema das carteiras falsas, para a distribuição irresponsável de benefícios (temo chegar o dia que somente adultos de 30 a 35 anos, que gostem de amarelo e prefiram sorvete de flocos terão que pagar uma inteira), quanto para o absurdo que se cobra pelos ingressos para eventos culturais.

O resultado é que o acesso à cultura só se dá quando a pessoa tem dinheiro ou então recorre à artifícios como esses da meia entrada, DVDs pirata, download de mp3, entre outros e cresce entre a população a idéia de que "educação e cultura é coisa de rico".

E nessa batida, o que acontece é que culturalmente o país vai ficando cada vez mais pobre, enquanto um monte de espertos enriquecem.



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