segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Cuidado com a patrulha - Publicado originalmente em 19 de agosto de 2013

Eu acho a cultura negra, no geral, uma droga".

Você consegue imaginar essa frase sendo dita no Brasil sem que em seguida comece a ouvir sirenes de polícia na sua cabeça?

Pior, consegue imaginar alguém dizendo que não gosta de samba, que não acha cabelo crespo bonito, que não vê nada demais em "morenas jambo" e que ainda que seja Flamengo não quer nem saber de uma nega chamada Tereza?

Isso dito assim, sem mais nem menos numa mesa de bar tem a capacidade de acabar com amizades e transformar o cidadão que falou praticamente num pária social. Dito num programa de rádio, TV ou coluna de jornal, garante a inscrição do nome do sujeito na mesma galeria de Hitler, Mussolini e demais comediantes de stand-up.

Mas imagine uma coisa: esse cara não tem nada contra negros, pelo contrário, tem vários amigos que são negros. Alguns curtem heavy metal como ele, outros andam de moto junto com ele, jogam bola com ele e outros ainda pegam onda e acampam de vez em quando com ele.

Não considera que seja nem bom nem mau por isso, afinal, quem pode ser julgado por ter amigos? Considera dois ou três mais inteligentes do que ele e um ou dois melhores no surf.

No futebol não, o indivíduo que não curte nada da cultura negra não consegue ver outro camisa 10 melhor do que ele, à exceção de Pelé, seu ídolo.

Já foi chefiado por um negro e é chefe de outros, mas nunca vê nessas pessoas a cor da pele e sim seus nomes, personalidades, capacidades e até suas encheções de saco, mas é só.

Se algum deles gostar do resto da cultura que vem junto com a cor de suas peles, é apenas uma discordância, nada demais. Ele não briga com seus outros amigos que torcem pelo Fluminense e nem por isso precisa virar tricolor.

Mas ainda assim este homem no Brasil será chamado de racista, porque ele descumpriu alguns mandamentos importantes de nossa sociedade, que são os seguintes: você precisa respeitar a diversidade e as minorias. Mas não só respeitar, você precisa bater palma para maluco dançar o tempo todo, senão...

E assim somos todos obrigados a "sambar no pé", a nos desculpar quando não sabemos "sambar no pé", porque afinal, "branco azedo metido no samba dá problema mesmo".

Precisamos amar um batuque, dizer (nem que seja da boca pra fora) que acha cabelo black power ma-ra-vil-lho-so, fingir que adoramos aquela sub-cultura de filme do Lazaro Ramos, tipo "Ó Pai, Ó". Fazer uma trancinha esperta e dançar um batidão até o chão.

Caso contrário, prepare-se: você será chamado de metido, esnobe, chato e, nos casos mais graves, "racista". E vai acabar parando num Gulag social e cultural, até que se renda, nem que seja para dizer que curte um funk melody.

Não seria mais aceitável se acontecesse com tudo, mas seria pelo menos mais coerente. O problema é que se você sair de movimento negro, ativismo gay, muçulmanos, movimentos sociais, índios (até os de araque, com tatuagem e cueca da Cavalera), não acontece o mesmo. Está liberado desancar a sociedade ocidental, a Igreja Católica, por exemplo, entre tantas outras coisas.

Tudo isso porque vivemos nessa época de muita preocupação com a diversidade e as minorias, mas esquecemos de respeitar a menor minoria de todas, o indivíduo e a maior diversidade de todas, a de pensamento.

Se o gosto e a opinião dele não se adequar ao que manda o COLETIVO, pior para ele. Sua opinião que se dane.




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