segunda-feira, 17 de março de 2014

Quer se sentir um bosta? Ande de ônibus

Quer se sentir um merda? Ande de ônibus.

Eu sei que já tem os impostos, a corrupção endêmica, a falta de educação generalizada, as cidades favelizadas, as ruas imundas, a poluição incorrigível, o clima que não é lá essas coisas, mas se tem uma coisa que me incomoda muito no Brasil é a qualidade paquistanesa dos transportes públicos.

Aquela imagem de um trem na Índia ou Paquistão lotado de pessoas até o teto que de vez em quando circula pela internet sempre me vem à mente quando preciso usar algum transporte público brasileiro que não seja um jatinho executivo ou uma lancha  luxuosa, e como não ando em jatinhos ou lanchas, costumo pensar nisso o tempo todo.

Se você é uma pessoa bem sucedida, respeitada no seu trabalho, admirada em casa e tem a estranha curiosidade em saber como é que se sente um merda, é simples: utilize algum transporte público de uma grande cidade brasileira no horário do rush. O metrô no Rio, algum ônibus em São Paulo, qualquer trem urbano. São esses os locais onde a democracia brasileira funciona plenamente e todos são igualmente uns bostas perante a lei. 

Em uma cidade com clima de fazer inveja a uma chocadeira como é o Rio de Janeiro, o ar-condicionado do metrô quase nunca funciona direito, os vagões estão sempre superlotados, as paradas bruscas fazem o passageiro pensar que está num ônibus dirigido por um epilético. E por falar em ônibus, pior do que a falta de educação dos motoristas só mesmo os 50 graus que fazem no interior dos coletivos da frota carioca, onde ar-condicionado e uma velocidade média superior a de um Fusca com três rodas e problema na caixa de marcha são um luxo.

Sobre os trens, uma rápida passagem dará o tom: certa vez fui num show do Roger Waters no Engenhão. A organização estimulou as pessoas a irem de trem, pois o acesso e o estacionamento no local são complicados. Confiei neles e o que senti na volta do show, onde umas 500 pessoas eram comprimidas aos berros e empurrões pelos funcionários da Supervia em um vagão com capacidade para umas 200 me fez deixar de comer sardinhas em lata durante muito tempo, em solidariedade às minhas colegas de sofrimento.

Isso num show com entradas a 200 reais. Imaginem o que não passam diariamente os josés das couves que ganham mal, não têm uma cultura de reclamar e pagam em torno de 3 reais pela passagem. 

Falei disso tudo para comentar sobre o episódio envolvendo a Lucélia Santos, quando a atriz foi fotografada de pé e aparentemente suando em bicas num dos cata-cornos que a prefeitura do Rio de Janeiro e a Fetranspor chamam de ônibus. A foto foi veiculada nas redes sociais e Lucélia, muito justamente indignada, protestou diante de piadas envolvendo sua suposta situação financeira.

Foi aquela coisa "ih, para andar de ônibus deve estar mal de grana". 

Disse a eterna Escrava Isaura: "o Brasil é o único país que conheço em que andar de ônibus é politicamente incorreto!!!!!!! Vai entender. Isso porque os ônibus aqui, e transportes coletivos de um modo geral, são precários e ordinários, o que mostra total desrespeito à população! Em qualquer país civilizado, educado e organizado, é o contrário. As pessoas dão prioridade a transportes coletivos para proteger o meio ambiente. Os governos deveriam investir em transportes decentes para a população, com conforto e dignidade, e depois pretender fazer discursos pelo mundo".

A associação feita pela pessoa que a fotografou com o fato dela possivelmente só andar de ônibus por estar sem dinheiro é a mesma que os governantes brasileiros fazem para tratar o transporte público da forma que tratam: é coisa de pobre e por ser coisa de pobre será tratado como coisa de pobre.

Em qualquer lugar um pouco mais desenvolvido do que Banânia trens e metrôs são rápidos, confiáveis e possuem certo nível de conforto. Sua extensão atende amplas regiões da cidade e todo mundo usa. O automóvel fica restrito para passeios de final de semana, viagens e ocasiões extraordinárias.

Mas o brasileiro é aquele pobretão que começa a ganhar um pouco melhor e passa a vender o almoço para comprar a janta com a intenção de pagar a prestação do carro zero. Se mostrar para os vizinhos é mais importante do que tudo. Daí que, assim que pode, todo mundo corre para o automóvel e fica zombando de quem ainda usa transporte público.

Não interessam as horas de engarrafamento, o custo, o que se paga em troca de tão pouco. Isso demonstra a falta de cultura de uma população que não consegue nem enxergar como ônibus, trens e metrôs decentes, funcionando 24 horas e atendendo as pessoas com dignidade, tornariam sua vida melhor.

Aqui o idiota orgulhoso coloca logo no carro um adesivo com a inscrição "Foi Deus que me deu", quando o certo deveria ser um "Deus me deu um cérebro, mas preferi trocar por esse Palio 2010 e mais 48 prestações".



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