terça-feira, 29 de abril de 2014

A KGB do bem

Donald Sterling, dono do time de basquete da NBA, Los Angeles Clippers, foi banido para o resto da vida do esporte. Deverá vender sua franquia, nunca mais poderá entrar em nenhuma instalação do time, assistir treinos ou jogos e ainda foi multado em 2,5 milhões de dólares.

Seu "crime"? Disse à namorada (que é preta) que "não levasse negros em seus jogos" e que evitasse publicar fotos ao lado de jogadores negros.

Onde ele disse isso? Num jornal? Numa transmissão ao vivo na TV? Aos berros no meio da quadra? Através de uma estampa na camisa? Com um megafone no meio da rua? Não, numa ligação telefônica que foi VAZADA por um site de fofocas chamado TMZ.

O vazamento da conversa levou até o presidente e attention-whore-in-chief Obama a fazer declarações contrárias ao magnata do basquete. As redes sociais explodiram em reprovação, a imprensa condenou, jogadores fizeram protestos em quadra, mas pouca gente, que eu saiba, considerou estranho que tudo isso tenha sido gerado por uma conversa telefônica privada. Mesmo que a namorada do sujeito tenha gravado isso e divulgado, continua sendo uma conversa privada, algo dito dentro da confiança de uma relacionamento e não em público.

Hoje é com o famigerado racismo. Amanhã pode ser porque suas idéias são muito "reacionárias", "insensíveis" ou "homofóbicas" (não, este já acontece, vide o caso do ex-CEO da Mozilla).

Sei que tenho uma posição meio radical na defesa da liberdade de opinião nesse assunto. Acho que qualquer um deve ter total liberdade para dizer que odeia brancos, pretos, amarelos em rede nacional e nada deve acontecer com a pessoa. É direito dela não gostar de alguém e é muita pretensão (e idiotice) achar que vamos OBRIGAR as pessoas a GOSTAREM das outras.

Você deve sim, por força de lei, sob pena de ser preso, respeitar os direitos constitucionais delas. Se alguém é imbecil o bastante e não gosta de andar ao lado de brancos no metrô ou sentar ao lado de pretos no estádio de futebol, que monte um home-office e não use transportes públicos ou assista os jogos em casa pelo pay-per-view, mas a pessoa não pode ser censurada por DIZER que não gosta.

O problema é dela, idiota é ela, mas liberdade é o direito INCLUSIVE de ser idiota livremente, DESDE QUE não interfira na liberdade dos outros.

Mas se alguém pode discordar de mim quanto à permitir que alguém fale o que bem entender em público, creio que somente psicopatas completos discordariam do direito de alguém falar o que bem entender em uma conversa telefônica particular.

Só que vivemos tempos tão neuróticos, que ninguém parou meio minuto para perceber o absurdo que é alguém ser punido publicamente por algo que falou em uma conversa RESERVADA que foi divulgada em público.

O monopólio do bem e a patrulha do politicamente correto chegaram nas conversas privadas. Mais um pouco e vão tentar invadir a mente das pessoas.

P.S.: Justiça seja feita, quando terminei de escrever isso li um artigo onde Kareem Abdul-Jabar, lenda do basquete e preto, declarou que o dono dos Clippers era mesmo um racista com uma história de violações de direitos e multas recebidas, mas que estranhou que somente uma conversa telefônica ridícula é que causou tanto escândalo e mais, disse que é igualmente digno de escândalo que, num país que se indignou com as espionagens do governo recentemente, as pessoas não se irritem com o fato de uma conversa privada ter sido gravada e divulgada na imprensa.



0 Comentários