segunda-feira, 7 de abril de 2014

Socorro! Estatizaram o útero

A mulher resolve ter um bebê através do parto normal. Vai ao hospital e a médica avisa que há riscos por razões tais e tais. A mulher, maior de idade, pagadora de impostos, eleitora, já mãe, resolve que não vai aceitar a sugestão da médica de fazer uma cesariana, assina um termo de responsabilidade e volta para casa, já que deseja apenas contar com uma assistência de prontidão caso haja alguma complicação no seu parto normal.

A médica então, quebrando o sigilo médico-paciente, resolve recorrer à justiça. Um promotor acha boa idéia se meter na história e um mandado judicial estatiza o útero e o bebê da gestante, que foi retirada de casa à força por um oficial de justiça e escolta policial.

Retornando ao hospital sob a ameaça de prisão, a gestante é anestesiada (drogada) e submetida a uma cirurgia contra a sua vontade. Para piorar a situação o pai é impedido de acompanhar a esposa, contrariando lei federal que garante o direito a um acompanhante (o hospital disse que ele estava muito nervoso, veja que absurdo, só um louco não mantém a calma numa situação dessas). O bebê nasce e alguns dias depois ambos têm alta.

A grávida resolveu acatar a ordem que removeu temporariamente o seu direito sobre seu corpo, transferindo-o para uma vestidora de toga e uma vestidora de jaleco, por medo do marido ser preso, afinal, a polícia invadir a sua casa como se você fosse o Renan Calheiros ou o José Dirceu e retirar sua esposa com seu filho na barriga dali como se fossem discos rígidos com informações sobre propinas para empreiteiros não é algo que se encare com muita serenidade.

Médicos de todos os lados da polêmica apareceram para defender desde a necessidade da cirurgia (duas cesáreas anteriores e a posição do bebê poderiam levar ao rompimento do útero) até o direito de um processo contra o hospital, já que existem casos em que uma mulher submeteu-se a até nove cesarianas e ainda assim realizou um parto normal em seguida, ainda que eu não entenda o que leva alguém a ter DEZ FILHOS antes de finalmente assinar a Netflix.

Mas vamos às justificativas. O hospital disse que agiu dessa maneira com “o objetivo era preservar a saúde e integridade da mãe e do bebê”. O promotor disse que o que pediu "foi que essa mãe se submetesse a tratamento adequado para tutelar a vida da criança". A juíza que emitiu o mandado que levou o Estado para dentro do útero da mãe afirmou que "mãe e bebê corriam risco de morrer". Nenhum exame de imagem confirmou a necessidade do parto cirúrgico. Por que então não buscar uma segunda e uma terceira opiniões?

Como podem notar, tanto a médica, quanto o promotor, quanto a juíza e o próprio hospital só quiseram o "bem" da mãe e do bebê, ainda que para isso tenham submetido ambos e a sua família a um stress que não pode fazer bem a ninguém.

Toda vez que o Estado se mete dessa forma na vida das pessoas, não dá em outra coisa: é autoritarismo na certa. Violência, coerção e absurdos como esse.

A menos que a mãe fosse alguém declaradamente incapaz, não consigo acreditar que desejasse o pior para seu filho. Se não fosse assim, certamente seria declarada incapaz, o que não era o caso.

Ao invés de estatizar um bebê e se enfiar dessa forma na vida e no corpo de uma mulher, roubando para sempre um momento que nenhum dinheiro do mundo poderá trazer de volta, o Estado poderia garantir que ela tivesse acesso ao parto humanizado que desejava em um ambiente onde os recursos hospitalares estivessem disponíveis poucos minutos após uma emergência.

Se muitas mães resolvem ter seus filhos em casa ou em casas de parto, é porque até mesmo nas grandes cidades brasileiras os hospitais não oferecem esse tipo de estrutura e, quando oferecem, o fazem com hora marcada, como se um parto normal fosse um hot pocket com tempo certo para ficar pronto no microondas.

Caso o Estado não queira se meter na relação plano de saúde-hospital-paciente, obrigando que os dois primeiros disponibilizem uma estrutura para o parto humanizado, que não se meta no corpo da mulher, desumanizando o que não lhe é de direito.

No Brasil, país atrasado, a cesariana é vendida como sinal de avanço, quando não é. 53,7% dos partos no país são realizados através dessa técnica, quando a OMS recomenda que esta porcentagem não exceda os 15%.

Deixar de educar as pessoas e reverter esse quadro já é uma falta grave do Estado, mas puxar as pessoas à força para dentro dele é um crime.

Link da notícia: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1435071-meu-parto-foi-roubado-afirma-mae-forcada-a-fazer-cesarea-no-rs.shtml


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