segunda-feira, 21 de abril de 2014

Tiradentes nos tempos da Lei de Gérson

Hoje é feriado de Tiradentes, aquele que Tancredo Neves descreveu como um "herói enlouquecido de esperança". 

Na versão patriótica foi um dentista, tropeiro, minerador, comerciante, militar e ativista político, mártir da Inconfidência Mineira, movimento separatista que lutou contra a cobrança de impostos abusivos e a dominação portuguesa. Morreu enforcado após assumir a responsabilidade pela Inconfidência e inocentar seus companheiros.

Na versão menos glamourosa foi apenas um bode expiatório de uma revolução que se dizia iluminista mas estava mais preocupada com o quinto (20% de imposto) que era enviado à Portugal.

Era alferes, o que na hierarquia militar antiga estava abaixo de tenente, e como haviam desembargadores e até coronéis no movimento, foi usado como boi de piranha para salvar os mais ricos e importantes que fizeram parte da revolta.

Mas como todo país precisa de heróis, a República fabricou o seu na forma de um barbudo enforcado por defender a independência.

Polêmicas históricas à parte, se fosse hoje nenhuma dessas duas versões provavelmente aconteceria. No Brasil atual Joaquim José da Silva Xavier sairia do serviço público envolvido em alguma polêmica e fundaria o Sindicato dos Alferes e o Movimento dos Sem Ouro, de onde lideraria invasões, quebra-quebra em agências bancárias e ocupações de prédios públicos.

De um lado se apresentaria como defensor dos pobres e despossuídos e de outro negociaria por baixo dos panos algumas pequenas concessões junto aos portugueses em troca ceder nos pontos que realmente importassem, embolsando um bom numerário por isso.

Faria discursos inflamados enchendo a boca para falar em nome do "povo" e dos "oprimidos", se dizendo um deles, mas esconderia uma casa em Angra e um apartamento em Miami colocando ambos no nome de um laranja. Jamais permitiria que a independência acontecesse, afinal, iria viver de que depois que o problema estivesse resolvido?

Não seria enforcado, no máximo seria réu de algum processo cabeludo que depois de décadas de recursos e chicanas chegaria ao Supremo e seria engavetado por algum juiz com uma estrela vermelha na toga.

Não se aposentaria nem depois de descobrir que tantos anos de picanha com gordura e uísque o deixaram com hipertensão e um princípio de cirrose, mas já estaria preparando algum dos seus filhos para assumir o sindicato um dia.

Não ganharia um feriado em sua homenagem, mas compensaria isso em dias não trabalhados com greves e piquetes. Ao contrário do Tiradentes histórico, que não poderia usar barba comprida como o retratam já que era militar, teria uma barba de sindicalista cuidadosamente cultivada, para jamais perder aquele ar de revolucionário cubano que acabou de sair de uma floresta, mas passaria creme rinse nela. Importado.

Sorte que antes não era hoje e se não temos certeza de quem, afinal, foi esse homem misterioso, pelo menos ganhamos um feriado. Sem piquetes e nem barbudos.

Já é muito mais do que conseguiríamos hoje.



0 Comentários