sexta-feira, 9 de maio de 2014

Morando numa jaula

Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio de Janeiro, 17:00, rua cheia de gente, trânsito, dia claro, de repente um motorista de van resolve parar o veículo em frente ao prédio do Detran, tirar a kombi em miniatura da calça e urinar ali mesmo, como se estivesse no conforto do seu lar.

Bem perto alguns ambulantes fritam camarões com cheiro de tão passados que devem ter nadado no dilúvio, fazem churrasquinho de alguma coisa semelhante a carne, uma água fedorenta vaza por um bueiro de esgoto entupido, camelôs vendem CDs piratas e berram oferecendo perfumes falsificados.

E o mijo escorre pelo asfalto, os carros passam, dois policiais fingem tomar conta da rua na esquina e mais um dia transcorre na cidade "maravilhosa" (aspas, por favor, né?).

Esqueça que daqui a uns dias esse lugar vai sediar uma copa do mundo e dali a mais ou menos uns dois anos uma olimpíada. Danem-se esses eventos que chegam e vão embora em duas semanas.

Agora pense que você é obrigado (por razões sentimentais, profissionais, etc.) a morar num lugar desse e me diga: a sensação não é a de estar trancafiado numa jaula?

O problema do Brasil não é saneamento, transporte público, sistema de saúde, favela, música ruim ou clima escroto. O problema do Brasil são as pessoas.

O país deu errado porque não forma pessoas, forma esse tipo de humanoide que atira latas de cerveja pela janela dos carros e ônibus, restos de comida no chão, berra o tempo todo, fura fila, escuta música alta no celular, assoa o nariz no meio da rua fazendo aqueles foguetes de meleca e não tem o menor constrangimento em despejar o conteúdo da sua bexiga até na cabeça dos outros se puder.

O que falta no Brasil é constrangimento. É o povo esquecer a tal vergonha alheia e passar a tomar doses cavalares de vergonha própria.




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