quinta-feira, 22 de maio de 2014

Wagner Moura e a Praia do Futuro

Visualize aí: sala de cinema na penumbra, pessoas se acomodando nas poltronas, um casal troca beijos no fundo, pessoas comem pipoca e fazem aquele barulho de desentupidor de pia enquanto sugam refrigerante pelo canudinho, gente confusa sentando no lugar marcado dos outros, começam aqueles avisos de não fumar, desligar o celular, etc., trailers e finalmente os créditos iniciais.

De repente uma cena de dois homens fazendo sexo. O filme sugeria algo do tipo, relação homossexual, beijo gay na novela, nessa levada, mas a cena vai um pouco além da mera sugestão, aquela coisa dos caras se olhando, se abraçando e corta para uma garrafa de champanhe explodindo. Digamos que seja mais explícito.

O filme em questão é "Praia do Futuro", com Wagner Moura, que conta a história da relação entre um brasileiro e um alemão. No meio da sessão uma pessoa levanta e sai, e depois outra, e mais outra, ninguém faz escândalo nem nada, apenas levanta dali e sai para pedir seu dinheiro de volta, afinal, "Dança com Lobos" é bem  diferente de "Transa dos Lobos". Apenas em um cinema de Niterói foram 40 as pessoas que saíram em uma única sessão. Em Aracaju e São Luiz cenas parecidas se repetiram.

Os estabelecimentos então resolveram dar um jeito nisso e instruíram as mocinhas e rapazes da bilheteria a avisar aos frequentadores sobre o teor do filme. Ninguém diz se é bom ou ruim, o espectador não chega para comprar o ingresso e ouve coisas como "olha, é a maior viadagem, hein" ou então "cuidado, se pecar e depois for para o inferno não reclame", nada disso, apenas avisam que no filme em questão há cenas mais fortes de sexo entre dois homens e pronto. Entra quem quer, não é como se ficasse um pastor ou um padre ou um rabino na entrada da sala olhando de cara feia.

Uma funcionária de um cinema em João Pessoa disse que o procedimento de avisar os clientes é normal:

- Este é um procedimento da empresa para todo o país. Avisamos na bilheteria a cada cliente sobre a sinopse do filme. E esse tem uma questão de gênero, tem imagens fortes.

Até que um professor e administrador de empresas recebeu a tal advertência junto com um carimbo de "avisado" em seu ingresso e resolveu botar a boca no trombone: HOMOFOBIA! - Berrou (eles nunca falam, só berram). Xingou muito no Twitter e declarou que "ficou surpreso e sem ação" (nossa, como esse pessoal fica surpreso e sem ação por qualquer coisa hoje em dia, não?), "por que não alertam quando há violência, sexo entre heterossexuais ou mutilação?", completou.

Os cinemas correram para chamar tudo de "mal entendido" e a produção do filme lamentou a "homofobia" (oh, que surpresa), dizendo que "esta história está provocando uma adesão muito positiva de um público engajado, determinado a defender o filme e a liberdade de expressão, reagindo contra qualquer faísca, ou mesmo atitudes homofóbicas." (engajados, ou seja, chatos).

A questão é: o politicamente correto, e aí entra a "militância gay", tem uma obsessão por definir o que as pessoas vão pensar e sentir. Não estou dizendo que seja normal ou aceitável você agredir pessoas de qualquer forma por conta da orientação sexual delas, mas de como você vai lidar com isso individualmente. A pergunta do frequentador "por que não avisam quando tem sexo heterossexual" é ridícula. Não avisam porque dentro dos padrões de normalidade em que a maioria vive e é criada, é natural e usual ver um homem e uma mulher se beijando. 


Por essa lógica você ouviria algo como "neste filme sobre patinação no gelo exibem cenas de pessoas patinando, senhor". Não tem por onde ficar mais ridículo do que isso.

É claro que não há nada de anormal em um casal de gays, sob o ponto de vista afetivo ou social, ninguém tem nada com a vida deles, mas querer comparar dois barbudos se beijando na tela do cinema a um casal heterossexual é forçar a barra, meu amigo. Alguém que levanta da mesa em um restaurante e vai agredir um casal de homens ou mulheres porque ficou incomodado com sua presença ali é um boçal e marginal, mas alguém se levantar de um cinema e pedir o seu dinheiro de volta quando descobre no meio da sessão que o capitão Nascimento virou o Pit Bitoca é a coisa mais compreensível do mundo (ferrou, falei "compreensível", vou cair no algorítimo Sheherazade). Assim como é normal o cinema passar a avisar aos frequentadores caso isso comece a acontecer direto.

Esse arranca-rabo todo não é porque a "militância gay" e os malas politicamente corretos querem defender o direito do filme ser exibido e a liberdade de expressão. Desconheço piquetes de religiosos na frente do Cinemark ou do Kinoplex, ao contrário do que a "militância gay" fazia na frente da igreja do deputado pastor Marco Feliciano. O que eles querem é OBRIGAR os espectadores que forem assistir o filme a sentirem-se ENQUADRADOS a ACEITAR aquela estética como normal PARA ELES. Não interessa se 99,99% dos brasileiros acharem perfeitamente normal e nem torcerem o nariz, os "engajados" irão atrás do 00,01% restante.

As opções são: ache normal, finja que ache normal ou cale a boca. Nada pode ser mais autoritário do que pretender mandar não na forma como o outro se relaciona com você, mas na forma como o outro se relaciona com os pensamentos dele sobre você. Todo mundo tem a obrigação de respeitar o outro no limite da lei e não existe lei obrigando alguém a "gostar" de ninguém e muito menos de achar legal cenas de sexo homossexuais no cinema. Bater não pode, injuriar não pode, constranger não deve, gostar faz quem quer e dizer se gosta ou não, é direito de cada um.

Sair do cinema, pedir o dinheiro de volta, avisar aos clientes para não haver constrangimento, tudo isso fere um único "direito constitucional": o de fazer faniquito porque não conseguiu impor sua idéia de mundo lindo, colorido, de pelúcia e cheio de Nutella para os outros.

No final das contas essa foi só mais uma dessas polêmicas armadas por coletivistas que visam doutrinar nossa sociedade a pensar como os monopolistas "do bem" desejam. Muito barulho por conta de uma relação comercial privada entre um cinema que avisa o seu cliente sobre a sinopse de um filme. Só. Filme que, aliás, eu mesmo nem me interessei pra ver, porque tirando o primeiro Tropa de Elite - "bota ele no saco, bota ele no saco" - acho esse Wagner Moura um saco.

Link da notícia: http://oglobo.globo.com/cultura/alerta-em-ingresso-de-praia-do-futuro-diz-respeito-meia-entrada-nao-sexo-gay-diz-cinema-12553105




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