quinta-feira, 22 de maio de 2014

O passeatódromo

Greves, manifestações, engarrafamentos... Vamos construir um passeatódromo?

Na década de 80, durante o governo Leonel Brizola no Rio de Janeiro, o então vice-governador Darcy Ribeiro teve uma idéia: construir uma passarela do samba, o "Sambódromo", e colocar embaixo das arquibancadas um monte de camarotes que serviriam como salas de aula durante o resto do ano.

Certa vez, em tom de brincadeira, ele disse: "eu enganei todo mundo dizendo que construí um Sambódromo, na verdade eu construí foi um escolódromo".

O tempo passou e nem sei mais se ainda funciona alguma escola ali (as favelas do tempo do Brizola continuam lá, firmes na paçoca), mas a passarela de desfiles ficou.

Pensando nisso, bem que o governo de algum estado da federação poderia destinar uma parte das suas verbas para obras superfaturadas e construir um "passeatódromo". Sim, porque este grotão da América do Sul ainda conta com vasto material humano para justificar a necessidade de um.

Onde mais ainda encontraríamos órfãos do comunismo, jovenzinhos criados a Toddynho e internet de banda larga fãs da ditadura cubana, socialistas morenos, proletários que nunca pisaram no chão de uma fábrica, espoliados que fazem compras de Natal em Miami, universitários que só aparecem em livrarias para fazer protestos contra blogueiros "reacionários" em noites de autógrafo, sem-terras que não sabem diferenciar uma enxada de um ancinho (picaretas eles conhecem muito bem) e, claro, um Partido dos Trabalhadores composto por gente que prefere ver o diabo chupando limão olhando para o sol do que enfrentar um dia de trabalho sequer?

No passeatódromo todos os marxistas carnavalescos poderiam exibir o seu esplendor revolucionário-ziriguindum e poupar os cidadãos que já perderam o interesse pela "luta de classes" (para acompanhar novelas ruins, basta assistir uma mexicana) e não estão dispostos a ficar presos em engarrafamentos causados por carros de som e bandeiras vermelhas.

Num país onde a União Nacional dos ESTUDANTES quer saber mais de política partidária, viagens patrocinadas e construção de prédios (que nunca saem do chão) do que de estudar, nada mais justo do que um Passeatódromo para que turistas possam ver que comunistas-do-cubrasil, socialistas-de-iPhone.com e revolucionários-da-GAP também sabem fazer seu carnaval.

Não faltariam quesitos interessantes como "pior feminista de cabelo no sovaco", "berro mais alto", "palavra de ordem mais caquética", "tocador de bumbo mais chato", "melhor escultura de Che Guevara", "Cartaz mais mal pintado", "bolsinha tira-colo peruana mais original", "evolução em sandália franciscana".

A Marcha da Maconha, a Marcha Gay, a Marcha das Vadias e até a Marcha do Sou Cretino Sem Noção e Marcho por Nada seriam realizadas ali. O problema seria arrumar público, mas creio que um programa que traga estrangeiros de países civilizados para ver de perto como ainda vivem os últimos remanescentes da guerra fria e do marxismo farofeiro poderia resolver essa questão.

Pra animar ainda mais a festa na praça da apoteose do passeatódromo o batalhão de choque dispersaria o desfile com gás lacrimogênio, confetes, bombas de efeito moral e serpentinas, enquanto todos cantariam o último hit do carnaval-revoluça:

- Fascistas, fascistas, não passarão na boquinha da garrafa, é na boquinha da garrafa!



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