terça-feira, 13 de maio de 2014

Outrora

Antes o cara era hétero ou bicha ou gilete. A mulher era mulher mesmo ou então sapatão. Tinha preto, branco e japa, que servia para todo mundo de olho puxado desde japoneses mesmo até aquele cearense descendente de índio que herdou o olho puxado dos bisavós.

No colégio tinha o CDF (que queria dizer cabeça ou outra parte da anatomia de ferro, dependendo do humor), o orelha, o boca, o cogumelo, o gago, o gordo, o quatro-olho, o cagão e o caniço.

Homem vestido de mulher era bloco das piranhas ou traveco, não tinha mais nenhuma variação sutil até chegar em Laerte e quando te zoavam na hora do recreio, você passava o resto do dia pensando em como dar a volta na saída. Maconheiro era só maconheiro mesmo e não um especialista em sociologia e segurança pública formado na "Universidade Acende, Puxa, Prende, Passa", sem contar que "vadia" era xingamento, só se chamava uma moça assim caso ela fosse efetivamente vadia e mesmo assim na cama, mas aí nem ela ligava.

Até que um dia a diretoria do mundo se reuniu e resolveu mudar tudo. Chamaram todo mundo e disseram: escolham aí um nome estranho, chato e meio ridículo quando pronunciado em voz alta, em seguida podem exigir que os outros usem, sob pena de serem acusados de preconceituosos.

Então surgiram os homoafetivos, heteronormativos, afrodescendentes, o brasileiro indígena e o brasileiro não-indígena, sexo virou gênero, gênero ficou relativo e qualquer dia alguém vai querer preencher um formulário indicando "cabra" como "gênero".

Só os japas continuaram japas, pelo menos até ontem.

Zoação virou bullying, e o quatro-olho, o gago e o gordo arrumaram uma ordem judicial proibindo o caniço e o cogumelo de se dirigirem a eles usando apelidos. Fora que a polícia está fazendo uma investigação no colégio por conta da suspeita de atividades incitadoras do ódio partindo de um grupo de meninos de 6 anos do primário, que foram vestidos de carrasco numa festa a fantasia.

Na brinquedoteca do colégio meninos brincam de boneca e meninas de carrinho, já que não podemos impor a eles uma opressão social-capitalista-burguesa-patriarcal por conta do que eles carregam entre as pernas desde que nasceram. É preciso dar espaço para que decidam se vão ser homens, mulheres, astronautas ou militantes do PSOL.

O único problema é se meninos decidirem ser meninos, meninas decidirem ser meninas, eles resolverem que gostam uns dos outros e que depois que crescerem vão brincar de casinha pra valer, encomendando novos meninos e meninas para perpetuar a espécie.

Isso não pode, ou melhor, até pode, mas é careta, alguma coisa deve ter dado errado na educação deles.
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