segunda-feira, 12 de maio de 2014

Tolerância é a palavra de ordem

O tolerante detesta intolerância. Ele não tolera esse tipo de coisa. O tolerante curte essa coisa misturada de opiniões, credos, raças, ideologias, religiões, culturas, desde que, é claro, não ofenda o seu conceito de mistura.

Marcha da Maconha, pelo direito de todo mundo acender seu braço de judas em paz numa praça de alimentação de shopping, o tolerante adora. Cigarro mentolado não. Cigarro mentolado não pode nem passar do estacionamento. "Proíbe, Anvisa! Isso também é droooooga!".

Tabagismo é coisa de gente feia e má. Gente que cedeu aos apelos da indústria, gente que não quer entender os malefícios do fumo, enfim, essa corja que não dá pra tolerar de jeito nenhum.

Outra coisa absurda é crucifixo em repartição pública. O estado é laico e isso ofende quem não tem religião (ou quem odeia religião, tanto faz) e o tolerante não tolera isso. Nada de imagens religiosas em locais públicos, a menos, é claro, que sejam santos católicos se beijando em cartazes na "parada gay".

Parada gay com imagens de santos se beijando a prefeitura pode até patrocinar, afinal, isso não é religião. Tudo bem que nem todo mundo é gay, tudo bem que além de laico o Estado também é assexuado (ou deveria ser), mas seria muita intolerância alguém ser contra o pagador de impostos bancar a micareta dos tolerantes.

Quer dizer, você pode até ser contra, mas desde que fique dentro do armário e não conte isso pra ninguém. É até bom porque já vai treinando, afinal, qualquer dia ser contra isso vai dar cadeia.

É que em nome da tolerância mandamos prender quem disser que é contra o nosso conceito de tolerância. Assim todo mundo cala a boca e pronto, resolvido o problema. Quem não se enquadrar e quiser continuar sendo intolerante a gente prende e arrebenta.

E se você acha isso meio estranho, o que diria então de feministas que reclamam que mulher não é só peito e bunda mas vão protestar na rua contra isso mostrando peitos e bundas? Incoerência? Não, meu amigo, tolerância. Tolere.

Senão corre o risco de ser chamado de machista, estuprador em potencial e quem sabe até de eleitor do pagodeiro Netinho, aquele do PC do B que já espancou a esposa.

Um tolerante não se importa tanto com o conteúdo quanto se importa com a forma. Negros são afro-descendentes, gays são homoafetivos (até que inventem um nome novo), gente que escreve errado não é gente que escreve errado, mas vítima de preconceito linguístico e por aí vai.

Os tolerantes não conhecem limites na arte de impor limites aos que pensam diferente deles.

Quer irritar um tolerante sem nem precisar fazer muito esforço? Basta começar alguma frase usando expressões como "minha empregada", "os serviçais do hotel" ou então "o populacho".

Não interessa o que venha depois, você pode até completar isso tudo com "é bonita", "são legais demais" e "é que sabe ser feliz", porque ainda assim o tolerante vai ter um ataque na sua frente, estrebuchar no chão e provavelmente até te chamar de filho de profissional do sexo.

Afinal, sabe como é, "puta" o tolerante não diz. Nem quando sente vontade.



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