sábado, 3 de maio de 2014

Vai ter copa, mas não deveria ter

Um vaso sanitário atirado do alto das arquibancadas do Estádio do Arruda, em Recife, matou um homem neste dia 3 de maio de 2014, a 39 dias do início da copa do mundo no Brasil. 

Se já era aterrorizador que a pouco mais de um mês para o início de um evento esportivo mundial nem os estádios superfaturados estivessem prontos, muito menos as tais obras de infra-estrutura que fariam parte do "legado" da copa, o que dizer de algo assim ter acontecido?

Notem, a copa do mundo serviu para mostrar primeiro aos brasileiros e depois ao mundo que a acompanhará que o Brasil, como projeto de país, é um fracasso. Não se consegue construir uma linha de metrô decentemente. Nem roubando. Nem com a linha custando três vezes mais do que custaria em qualquer outro lugar do planeta. Nem custando dez vezes mais!

Não se consegue fazer a urbanização do entorno de um estádio que nem pronto está, quando deveria ter sido inaugurado há 4, 5, 6 meses. Nem cobrando comissão, taxa de sucesso, propina do deputado, caixinha do secretário, leitinho do governador, capilé do ministro. Nada. Nem assim. É como pagar uma prostituta para receber um aperto de mão.

O pagador de impostos brasileiro não pediu para ser jogado neste bordel. Foi atirado ali na marra, sem que ninguém perguntasse antes "e aí, está afim de uma diversãozinha?". Mas cobraram a conta dele, o preço de uma prostituta de luxo por algo semelhante a uma boneca inflável feita com câmaras ar de pneu de Fenemê, e ainda assim ele não ganhou nem um aperto de mão, mas um pescotapa. Não dá.

Me entenda: esse movimento "não vai ter copa", na minha opinião, é uma idiotice porque chegou uns 6 ou 7 anos atrasado. Onde essa gente toda estava em 2007? E em 2008? E depois, e depois? Agora que os monstrengos mal acabados já sugaram dinheiro a perder de vista, que as seleções estão prestes a chegar, é que vão fazer alguma coisa?

É o ditado "brasileiro deixa tudo para a última hora" levado às últimas consequências. Deixaram para protestar na última hora contra um evento que está sendo tão mal organizado que provavelmente não ficará pronto nem na última hora. É a última hora sendo deixada para a última hora. Não pode ser mesmo um país sério, e ainda que De Gaulle não tenha dito tal coisa, deveria ter dito. Se não disse mesmo, eu digo por ele: o Brasil não é um país sério.

Mas um país ainda que seja uma abstração em certo nível, não é apenas uma abstração. Um mapa, um hino, uma bandeira, o escambau. Tem gente ali dentro e o que vai dentro do Brasil como recheio, pelo amor da madrugada! Não adianta só falar mal de político, do governo, porque eles não brotam da terra, eles brotam da urna, adubados com o seu voto (e olhando para esse Congresso e para esse governo, bota adubo nisso).

O brasileiro, como povo, como governo, como país é um fracasso. Como organizador de uma copa do mundo? Um fracasso. Como transformador de sua infra-estrutura não só para a copa do mundo, mas para depois, o que seria muito mais importante? Um fracasso. Como manifestante contra uma copa do mundo? Um fracasso, já que nem para isso chegou na hora. Mas o Brasil acima de tudo é um fracasso como formador de gente.

Falta de educação, lixo no chão, gritaria, malandragem, agressividade, desonestidade, não é o Congresso e nem o governo que obrigam cada um que adota esses comportamentos a fazer isso, é a própria pessoa por livre e espontânea vontade. 

A educação no país é uma piada, concordo, as escolas e universidades perdem tempo demais formando esquerdopatas paulofreireanos e esquecem de formar pessoas, mas não precisa ser cientista espacial para saber que jogar uma lata de cerveja pela janela do ônibus é um comportamento abjeto.

Não é preciso ser poliglota para entender que ficar conversando aos berros num vagão de metrô é falta de educação em qualquer lugar, que ouvir música alta no celular incomoda, que cuspir no chão deveria ser punido com 100 chibatadas em praça pública, etc., etc.

Ninguém faz essas coisas na sala de casa ou quando quer impressionar a gatinha, então sabem que é errado.

Mas atirar uma privada do alto de uma arquibancada, sinceramente, é o atestado que faltava: o Brasil não deu certo. Ponto. Pode autenticar, reconhecer firma e registrar.

Vai ter copa, claro, a essa altura do campeonato não tem outro jeito. Vai ter copa. Mas não deveria ter.


Link da notícia: http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/vaso-sanitario-atirado-de-estadio-mata-torcedor-em-recife



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