quinta-feira, 5 de junho de 2014

Desde que eu não pague, o problema é seu

A repercussão da tal festa "Xereca Satanik", realizada na UFF, no Rio de Janeiro, tomou conta da cota de debates sobre as frivolidades e idiotices da esquerda nessa semana.

Algumas "artistas" fizeram uma "performance" onde até uma delas tinha a vagina suturada em público, usaram um prédio público para isso, o Reinaldo Azevedo chamou tudo de idiotice e palhaçada (e é), além de retrato do Brasil do PT (e é também), e o chefe de departamento que autorizou o bacanal sadomasoquista num prédio que pertence ao pagador de impostos deu um chilique, dizendo que "universidade é lugar para debate" e que não deve satisfações à gente atrasada que não abre a cabeça (ou algo assim, mas com o mesmo sentido).

Chegaram a me indagar "quem o Reinaldo Azevedo pensa que é para se meter no que acontece dentro de uma universidade?" ou "por que tudo é culpa do PT?". Bom, para responder essa e outras questões, vou usar algum espaço, mas é fácil e didático, basta estar em pleno gozo das faculdades mentais que a pessoa entende perfeitamente.

Então vamos lá.

Por partes, para não prejudicar o bom entendimento (com esquerdista tem que fazer maquete de massinha e diagrama com M&Ms): primeiro o Reinaldo Azevedo fala para um tipo de público que por mais que possua um ponto de vista discordante do ponto de vista dos professores do tal curso, é um ponto de vista válido e que tem todo o direito de ser evidenciado, afinal ainda vivemos numa democracia, ainda que a Presidência da República ande se esmerando em cuidar para que isso mude.

Assim como o chefe de departamento defende um tipo de visão de mundo, Reinaldo defende outra. Se um não puder falar, o outro também não pode ou então vivemos uma ditadura.

É inconcebível que um professor universitário se exponha a um debate (e ao autorizar e apoiar uma orgia sadomasoquista num prédio público ele se expôs) e depois queira interditar esse debate com uma falácia grosseira como "quem discorda de mim é estuprador e cara de melão". Isso até se coaduna com certos comportamentos observados, tolerados e praticados na UFF, uma vez que o deputado Jair Bolsonaro já foi CONVIDADO para um debate no campus de Niterói e precisou sair escoltado por um camburão.

O que isso quer dizer? Que o ambiente das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) no Brasil está tão saturado por um único tipo de pensamento, de visão de mundo, de paradigma, que tornou-se um fim em si mesmo e, pior, tornou-se um ambiente refratário à REAL discussão de idéias.

Não interessa o que representa o Bolsonaro, eu mesmo discordo de muita coisa que ele fala, mas uma universidade em que um CONVIDADO precisa sair de um DEBATE protegido de agressões pela polícia não é uma universidade, mas uma jaula de gorilas, um campo de doutrinação fascista e nada mais.

Quanto à festa em si, as justificativas para a realização de tal "performance" podem ser várias - novidade não é, porque Sade já descrevia isso, Pasolini filmou e a festa "Fetixe" reencenava no Rio de Janeiro todo mês, só que em ambiente privado - mas o que se reprova é a conveniência do uso de um equipamento público para a realização de tal espetáculo grotesco.

Fosse a UFF uma universidade particular, somente quem paga a mensalidade teria a ver com isso. Sendo uma universidade federal, até um pagador de impostos lá de Cruzeiro do Sul, no Acre, tem direito de se meter, o que parece incomodar o chefe de departamento, que acredita estar numa espécie de capitania hereditária, não devendo satisfações à escumalha que paga o seu salário. E isso está errado. Ele deve satisfações sim, ou então poderia ter feito uma vaquinha, alugado um espaço privado e mandado as "artistas" fazerem sua performance lá.

Um erro comum no ethos do brasileiro é achar que algo público não tem dono, quando algo público na verdade é de todos, sendo assim é dele mas não é, porque também é do sujeito ao lado dele. Logo, todos devem ter respeito e parcimônia com o seu uso e não achar que aquilo é a extensão de sua casa.

Finalizo dizendo que o PT não é a origem de todos os males do país, incluindo aí o aparelhamento e a absorção do Estado por um partido, mas não ser a origem não quer dizer que ele não tenha sido a profissionalização e a elevação disso à uma espécie de padrão ético.

Quem frequenta ou frequentou qualquer IFES no Brasil sabe que há, sim, disseminação de um discurso que tem viés, que tem lado e que não permite sequer a manifestação do outro.

A reação histérica do chefe de departamento às críticas que recebeu por conta do uso que fez do que não é dele, mas de todos, é a prova cabal disso.

Abaixo mais uma das fotos do "evento". Não imagino isso acontecendo em Harvard (mas também se acontecesse, problema deles, ao contrário da UFF, não é o pagador de impostos que sustenta Harvard).




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