terça-feira, 10 de junho de 2014

Favela tour

Preços só sobem, cidades imundas, trânsito caótico, corrupção endêmica, mas claro, estou preocupadíssimo é com o que os turistas vão pensar.

Desejo imensamente que todo turista estrangeiro que venha para Banânia na copa se divirta. Que passeie, assista jogos da sua seleção, comemore gols, vá beber uma cervejinha depois, volte para o hotel com aquele cansaço bom e no dia seguinte faça tudo de novo, ou até melhor.

Mas que, entre uma diversão e outra, ele já chegue no aeroporto pegando uma fila de 40 minutos para tomar um táxi, que o motorista não queira cobrar a corrida normal, mas um valor fixo e imoral, e que no caminho o cheiro da Baía de Guanabara ou do Rio Tietê podres o façam descobrir que rios, lagoas e praias no Brasil nem sempre são sinônimo de um banho refrescante, mas de muito cocô e detritos boiando.

Que pela janela do carro veja barracos, favelas, montes de lixo, moleques de rua que a prefeitura esqueceu de esconder e mendigos vagando como figurantes de filme de zumbi.

No hotel, o maleiro vai atrasar, o quarto não vai estar totalmente arrumado e aquele refrigerante que ele pediu ainda na recepção vai demorar uma meia hora para vir. Serviço no Brasil é assim.

Quando for ao estádio, que pegue um ônibus ou metrô lotado, dando freadas bruscas e solavancos, com sovaqueira e bafo no nariz, calor, trânsito e buzinas de motoboy.

Que nos arredores do local da partida seja abordado por cambistas e veja os flanelinhas agindo sob olhares complacentes da polícia. Que na entrada, descubra que as placas indicativas estavam erradas e seu portão é do outro lado, tendo que contornar toda a volta da arena sem que um mísero funcionário da organização consiga informar a ele nada além de que está ali desde cedo sem comer, que o pagamento é uma bosta e que no dia seguinte nem vai aparecer.

Sabe como é, no Brasil você consegue todas as informações das quais não precisa, principalmente se forem as reclamações de quem deveria te atender.

Já dentro da arena, depois de enfrentar fila e empurra-empurra nas roletas, que tente matar a sede comprando uma água, já que bebedouros no país são luxo, e descubra aterrorizado que uma garrafinha de 350 ml custa 10 reais ali dentro, porque os comerciantes têm que "aproveitar e tirar o prejuízo do resto do ano".

Que seu time faça muitos gols no primeiro tempo, para compensar os copos que jogarão na sua cabeça e o banheiro imundo que vai ter que usar para urinar, já que sentirá vergonha de agir como os habitantes locais e fazer na parede mesmo.

Que na volta depois do final da partida, descubra que as autoridades no Brasil cuidam (mal) de algum evento só até o seu término, depois disso é cada um por si.

Que a polícia suma, trombadinhas apareçam, os ônibus circulem com 10% da frota normal para aquele local e ele precise sair correndo até a estação do metrô ou ponto de ônibus, onde vai aprender a dar cotoveladas para se meter naquele transporte de gado e sair dali, porque se demorar mais meia hora o comércio fecha, a rua fica deserta e é capaz de roubarem até as suas cuecas.

Quando for relaxar na praia no dia seguinte, que tenha que pagar 20 reais para usar uma cadeira e guarda-sol, 8 por um coco e uns 10 por um pastel. Fora a necessidade de fugir dos ratos de praia e das fraldas usadas que educadas mães atiram no mar depois de devidamente cagadas.

Que quando tentar acessar a internet ou o GPS do celular para buscar alguma informação, tenha que lidar com a rede 3G da TIM, da Claro, da Oi, da Vivo, enfim, essas maravilhas que perdem o sinal se você entrar numa loja, atravessar a rua ou espirrar fora de hora.

Que ele não precise usar uma delegacia ou um hospital público, porque aí já seria choque de realidade demais para sua pobre cabecinha.

Que os serviços, transportes, preços e toda a realidade do Brasil se mostrem a ele sem retoques, sem maquiagens, sem filtros e ainda assim ele se divirta, faça amigos, abrace estranhos comemorando um gol, pule carnaval na vitória do seu time, ande de chinelo e roupa de praia pela rua, que saiba ser feliz como o cidadão brasileiro consegue ser, APESAR do que o cerca, nesse estado de torpor-estupidez-alienação defensiva e seletiva que a pessoa precisa entrar para não viver irritada com tudo o dia inteiro.

E que no final veja como tem sorte, porque vai experimentar a "alegria" do brasileiro, mas vai voltar para a sua terra, deixando o resto da vida de gado pra quem já está mais acostumado. Favela tour é o maior barato, campeão, mas vai morar ou conviver com favela só pra ver.

Que os turistas se divirtam muito e pensem muito mais mal ainda do Brasil quando forem embora, com aquela sensação de alívio de quem foi num safári na África mas não vai precisar ficar ali depois, vivendo com os rinocerontes.

A copa pode ser um sucesso, mas o país, esse já é um fracasso.



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