segunda-feira, 2 de junho de 2014

Notas de três reais

No livro "Luz da Idade Média"; a historiadora francesa Régine Pernoud desfaz vários mitos sobre a época, dentre eles a idéia de que existiam reis e senhores feudais tenebrosos que exerciam um poder opressor e desleal sobre seus vassalos e súditos.

Antes de mais nada, o que existia era uma espécie de contrato de proteção, de troca, onde a responsabilidade sobre o cultivo da terra e a proteção dos que nela viviam fazia parte das obrigações de ambas as partes. Senhor e servo tinham direitos e deveres.

Alem disso, as leis eram os costumes, ou seja, os hábitos e regras estabelecidos nas relações pessoais transformavam-se no direito, sem um poder central e indiferente impondo suas vontades.

Espanta, portanto, descobrir que em muitos aspectos havia mais democracia do que temos hoje, quando uma Anvisa da vida decide monocraticamente qual remédio podemos tomar, qual cigarro podemos fumar e até qual propaganda podemos ver.

Em frente.

Um senhor tinha obrigações com seu servo, mas o intrincado sistema de esferas de influência fazia com que tivesse um senhor acima dele, a quem ele devia obediência e que também lhe devia obrigações próprias. E acima desse senhor havia outro, e mais outro e assim sucessivamente até chegar ao rei, que nada mais era do que o chefe de um grande clã, também com direitos e deveres e a quem cabia a administração e a justiça, já que não deixava de ser um senhor feudal ele mesmo.

E aí é que a coisa fica interessante, pois se não lhe cabia simplesmente impor leis, algo deveria fazer para liderar e esee algo era o exemplo. Como sói aos barões admirar e emular as virtudes do seu senhor, o bom exemplo do rei é que garantia a ordem e o progresso. Para se ter uma idéia, todo grande vassalo podia cunhar suas moedas, mas como o rei zelava para que a sua fosse sempre sã, já que precisava dar o exemplo, ela acabou sendo adotada pelos demais, que viam nisso uma garantia.

Toda essa história é para dizer o seguinte: um governante DEVE ser o exemplo para seus governados. Numa República o poder emana do povo e em seu nome é exercido e somente o trato honesto, altivo, sério e comprometido com a sanidade e a legitimidade deste poder podem dar um exemplo digno de ser seguido.

Agora olhem para o Brasil. Vejam que tipo de homens ocupam os mais altos cargos da nação. Ouça o que dizem, observe o que fazem, atente para o que instruem aos seus seguidores, veja como tratam suas obrigações e conclua se somos ou não uma nação de bons exemplos, de virtude, onde cada um respeita e cumpre o seu papel.

A canalhice impune, desavergonhada e incorrigível é o exemplo que o governo oferece. A mentira, a dissimulação, o roubo, o cinismo, o ataque constante à liberdade individual.

Essas são as moedas correntes, esse é o dinheiro moral cunhado, quase todos o adotam, mas todos sabem que não vale nada.
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