terça-feira, 1 de julho de 2014

É esporte, estúpido

Alguns comentaristas esportivos brasileiros não fomentam uma rivalidade entre o Brasil e a Argentina, mas uma guerra. Seja o bobalhão Galvão Bueno dizendo que "ganhar da Argentina é mais gostoso" até paspalhos como o tal Rica Perrone que xinga e os trata quase como inimigos, a imprensa brasileira cria um clima para a disputa esportiva entre os dois países que beira o incentivo à violência.

Renato Maurício Prado chegou a dizer em uma de suas colunas que uma final entre Brasil e Argentina na copa demandaria até a presença das forças armadas na rua. E pior que não acho que ele esteja exagerando.

Calma, não vou pedir nenhuma lei criminalizando a rivalidade esportiva, afinal não sou de esquerda, lembram? Mas creio que a chave está justamente aí: é uma rivalidade e não uma disputa de ódio.

Eles também fazem brincadeiras, também estimulam a disputa entre as torcidas, fazem sua catimba, alimentam a eterna disputa entre Maradona e Pelé, e sentem prazer especial em vencer o Brasil. Mas sinceramente - e já estive por lá várias vezes - não há ódio. Muitas vezes existe respeito, admiração e rivalidade, mas ódio não.

Quando o Brasil disputou uma fase eliminatória contra a Inglaterra na Copa de 2002, o diário Olé publicou na sua manchete "Que percam os dois". Quando o Brasil venceu seu quinto título mundial, a manchete foi "Deus, por que eles?". Mas fica nisso.

Duvida de mim? Faça uma visita à bela e inigualável Buenos Aires e confirme por si mesmo.

Aqui não. Uma pesquisa realizada entre turistas portenhos que vieram à copa de 2014 revelou que grande parte deles sentia que os brasileiros não gostam de argentinos. Quando eu passava férias em Cabo Frio, volta e meia os via sendo ofendidos, sacaneados e até agredidos.

A desculpa é "são racistas, são preconceituosos e diminuem os brasileiros". Vejamos: aqui eles são chamados de porcos, sujos, desonestos, violentos, intolerantes, esnobes. Isso não é preconceito?

Na Argentina não existem tantos pretos assim, eles não sofrem da paranoia racial que ultimamente é incutida na cabeça dos brasileiros desde o berço, onde tudo relacionado à quantidade de melanina na pele é motivo para gritaria, polícia e processo.

O trato pessoal deles é diferente por questões culturais, só. Brasileiro é mais expansivo, fala mais alto. Eles são um pouco mais reservados, mas também gritam um bocado dependendo da hora e curtem puxar papo com estranhos na rua. São curiosos sobre o Brasil e tratam turistas com o maior carinho, dando informações, ajudando e oferecendo dicas.

O brasileiro possui um imenso complexo de inferioridade. Viaja para o exterior usando uma camisa da seleção, fala alto, joga papel no chão, alguém chama sua atenção e aí começa a ladainha "tá vendo, eles têm preconceito contra brasileiro". Não, meu amigo, em qualquer lugar do mundo existe preconceito contra chatos e mal-educados, não seja um e é grande a chance de você se dar bem.

Brasileiro nasce ouvindo que o hino do país é o mais bonito, que a bandeira é a mais bela, que a terra é abençoada e que não existe lugar melhor no mundo. Cria comunidades e páginas como "Odeio os EUA" e "Maradona é cheirador", mas se ofende se alguém diz que acha que samba soa como uma máquina de lavar com defeito.

É uma sociedade altamente infantilizada, que recorre à ameaças de censura diversas sempre que algo os desagrada e que, muitas vezes, odeia o adversário que secretamente admira, pela total incapacidade de lidar com essa admiração de forma sadia.

O brasileiro deveria entender que seu hino é bem bonito, mas outros também são, que a bandeira é diferente, bonita, mas que existem outras e que não gostar do Brasil não é "preconceito", é opinião, gosto pessoal, estilo. Uma capa de revista mostrando Cristo Redentor decolando como um foguete não fez o país ficar melhor e uma manchete chamando a Baía de Guanabara de penico não o faz ficar pior.

O Brasil é o que é, como país, como nação, como seleção de futebol, como povo reunido em um território. Assim como tantos outros ao redor do mundo, só.

Futebol é um esporte, não é guerra. No dia seguinte, seja em São Paulo ou em Córdoba, todo mundo vai continuar trabalhando, pagando suas contas, namorando, indo ao cinema.

Odiar um povo por causa de futebol é coisa de idiota. Comentaristas esportivos ganham muito dinheiro para isso, mas e você? Ganha o quê?

Sai dessa. Vai comer um alfajor.



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