sexta-feira, 25 de julho de 2014

O Movimento dos Sem 3G

Esse texto é sobre um Guilherme imaginário, fictício, ainda que seja muito parecido com o Guilherme Boulos, o líder dos "Sem Teto" de São Paulo, que cercou a Câmara dos Vereadores e quer fazer acampamento com posterior loteamento até nos Jardins.

O Guilherme desta história é o típico filho te da classe média brasileira. Seu apelido em casa provavelmente era "Gui" e a empregada nunca esquecia de deixar o achocolatado e os cereais preparados para o seu café da manhã.

Saindo do banho, com a mamãe gritando "olha a hora, Gui!", ele corria para a cozinha e engolia tudo antes de ir para o colégio no carro do papai.

Assistia o primeiro período de aulas e ia para o recreio comer x-tudo, trocar figurinhas, jogar uma peladinha ou ficar ouvindo rock americano em seu walkman.

Depois do segundo tempo de aulas a mamãe com a sua minivan já chegava apressada para buscá-lo no colégio:

- Anda, Gui, se despede dos seus colegas que ainda tenho que comprar meu maiô da hidroginástica antes de te levar pro inglês.

E assim seguia a vida, entre passeios no shopping, videogames e deveres de casa. Saía com os primos para jogar ovo em ponto de ônibus, dava cuecão no coleguinha, matava aula pra fumar escondido na despensa da cantina, enfim, Gui era um "bom menino".

Até que começou a ter aulas de História e Geografia no Ensino Médio, onde conheceu uns professores que apresentaram a ele umas idéias geniais: todos seriam rigorosamente iguais, não haveriam pobres e nem ricos, ninguém seria melhor do que ninguém, todos teriam casa, saúde, educação e comida fornecida pelo Estado, além disso nessa sociedade imaginária todo mundo seria mais fofo do que um Smurf, mais simpático do que um Hobbit, mais sustentável do que os Smurfs gigantes do Avatar e mais felizes do que um clipe musical da Noviça Rebelde.

O único problema era a classe média e a burguesia. Uma gente asquerosa, metida, racista, machista, homofóbica, elitista e que se divertia mais vendo alguém passar fome do que fazendo compras nos Estados Unidos.

Gui teve um choque ao descobrir que seus pais faziam parte dessa gangue de celerados que tinha por objetivo de vida manter pessoas sofrendo na pobreza. Aquele papo de "muitos impostos", "serviços públicos ruins" ou mesmo "trabalhar para se sustentar" não passava de discurso de pequeno burguês para camuflar seu ódio do povo e perpetuar "privilégios" como comprar um carro parcelado e pagar IPVA.

Sentiu ódio da sua família, essa instituição retrógrada, conservadora e falida. Se pudesse, voltaria no tempo e devolveria a viagem que ganhou à Disneylândia.

Passou uma semana tomando banho com creolina para "se limpar" daquele toque do imperialismo que foi o abraço que deu no Mickey para tirar uma foto.

Foi para a universidade e lá no DCE e nas aulas daqueles velhos professores comunistas que moram em bairros de classe média alta, ganham 10 salários mínimos por mês e sempre que podem viajam para o exterior com tudo pago pelo governo para "congressos" e "cursos", aprendeu de verdade o que é fazer revolução.

No boteco.

Entre cervejas e linguiças boiando na gordura, Entre pedidos de uma bolsa de iniciação científica aqui e um intercâmbio em Paris ali, Gui e seus amigos (todos brancos, de classe média) vociferavam contra a elite branca e choravam o sofrimento dos negros. Trocavam impressões sobre os últimos artigos da Carta Capital, combinavam alguma manifestação anti-EUA-Israel-Ocidente-Machismo-Racismo-Homofobia-Alta-no-Preço-do_Whopper, e prometiam que um dia a "burguesia" seria imolada no altar do furor revolucionário.

O tempo foi passando e os colegas de curso do Gui foram amolecendo. Se formaram e um foi vender sapatos na DiSantinni, outro foi trabalhar na empresa do pai, um outro fez mestrado e passou no concurso de professor adjunto graças à banca que bebia cerveja com ele toda quinta, enfim, a maioria deles descobriu que todo o capital que gastavam enquanto lutavam contra o capital vinha de algum lugar ao invés do céu, atirado por querubins com barbas de Marx e boinas de Che Guevara.

Na "luta" mesmo só o Gui e mais uns dois ou três, sendo que estes se encostaram em algum sindicato e viviam como parasitas de greve em greve. Gui precisava fazer algo!

Resolveu liderar o "movimento dos sem telha" (não vou usar "teto" para não pensarem que falo especificamente do outro Gui). Tornou-se então um feliz herdeiro de apartamento em zona nobre que liderava "pobres coitados" que não tinham onde morar.

Passou a viver em acampamentos, a falar como "líder" e "mentor intelectual" da plebe ignara revoltada contra a espoliação, invadia terrenos em áreas caras, prometia "banhos de mijo" ("banho de sangue" foi o outro que prometeu) caso suas vontades não fossem atendidas, fechava ruas, infernizava pessoas indo e vindo do trabalho e dizia sentir na pele as necessidades que nunca passou, já que sempre foi um riquinho mimado que nunca ouviu um "não".

Era até recebido por políticos e pelo prefeito, um babaquara com popularidade digna de vilão de novela das nove que era do partido que o Gui simpatizava e que simpatizava com o Gui.

Até que um dia Gui deve ter tentado sem sucesso acessar o Facebook, enviar algum email reclamando que a Amazon não entregou seu exemplar do livro do Piketty ou então pedir uma pizza pelo site da Domino's.

Ficou (de novo) muito revoltado com aquilo. A rede 3G no Brasil é uma porcaria! Isso não pode ficar assim, pensou. Reuniu seu bando de "sem teto" e foi lá tirar satisfações na porta da operadora de celular.

- Não dá, não dá, não, dá, não dá, não dá! Assim o proletário não usa o celular! - Foi seu grito de guerra.

E assim Gui participava de uma luta que entendia como ninguém, vivendo um drama característico das pessoas de sua classe social, a dos proprietários de iPhone. Era o Movimento dos Sem 3G. Sei bem o que é isso, sou cliente da TIM (uso a palavra cliente porque não quero me auto-intitular um "babaca da TIM").

Esta era uma luta que até os pais burgueses do Gui compreenderiam e apoiariam: a de quem reclama do serviço prestado a donos de celulares que custam o que um sem teto de verdade não ganha nem em dois ou três meses.

Finalmente ele estava no lugar certo. Os sem teto é que estavam no lugar errado, ali, servindo de boi de piranha das lutas do Gui que nada têm a ver com suas reais necessidades.

Mas isso não é novidade, o Gui (e o partido que adora o Gui) fazem isso com eles há muito mais tempo.



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