quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O petismo verde

Marina Silva periga ficar conhecida como a política-mesa-branca. Começou a carreira com o cadáver do Chico Mendes como cabo eleitoral, depois foram as ilusões de petistas arrependidos com a morte do "partido da ética" e o surgimento do partido do mensalão, agora é Eduardo Campos o seu palanque necrológico.

Se era para homenagear, as homenagens estão feitas. Continuar citando o "Eduardo" chega perto da linha tênue entre homenagem e exploração.

Mas adiante.

Resolvi falar dela agora porque, pelo visto, a vice-viúva já saiu do luto fechado e está em plena campanha, logo me desobriga a manter o silêncio respeitoso.

Marina diz que pratica uma tal "nova política", ainda que ela mesma esteja na política desde 1985. Seu mote é "inovar", mas cita como possíveis colaboradores nessa tarefa Pedro Simon (32 anos de Senado), Eduardo Suplicy (24 anos de Senado) e José Serra, alguém que muito admiro, tanto que votei nele em 2010, ao contrário de Marina, que negou seu apoio no segundo turno.

Seu discurso belo e vazio diz basicamente que é contra "tudo isso que está aí" e que repudia "políticos profissionais e tradicionais". Por isso o seu eleitor-médio a considera uma inovação.

Diz que é a superação da dicotomia PSDB-PT, para logo em seguida afirmar que pretende governar junto com PT e PSDB.

Mas vejamos com muita calma: Marina era do PT, foi ministra de Lula até bem depois do mensalão, saiu quando percebeu que Dilma, por ser poste, é que seria ungida a sucessora e não ela, foi para o PV, teve 19 milhões de votos para presidente, negou-se a apoiar José Serra no segundo turno ajudando assim Dilma Rousseff (ou alguém duvida que um apoio explícito seu ajudaria o Serra?), por não conseguir se impor dentro do PV saiu do partido, recusou convites de vários partidos pequenos para trabalhar ali preferindo criar um SEU, não teve competência para juntar assinaturas (Pros, Solidariedade e Novo conseguiram), entrou no PSB dizendo claramente que faria o partido de hospedeiro até sua Rede sair do papel, bateu de frente com os socialistas dinamitando alianças que não atendiam seus interesses em vários estados, declarou-se ajudada pela "Providência" quando um acidente matou seu colega de chapa, faz uma campanha sem "se misturar" com o que não é "limpo" o suficiente e seus militantes tratam a "seringueira pobre que venceu na vida e vai mudar o país" como alguém intocável, acima de críticas e que "sabe o que fazer" quase que por inspiração divina.

Parece muito o partido de um metalúrgico pobre que venceu na vida e iria mudar o país. O mesmo que se recusou a apoiar Tancredo, a assinar a nova Constituição, a fazer parte da aliança que ajudou Itamar Franco a tirar o país de uma das piores crises políticas da sua história, a apoiar o Real, a lei de responsabilidade fiscal, as metas de inflação, o câmbio flutuante, as privatizações que modernizaram setores do país e que nunca "se misturava com ninguém" porque era um partido "acima da política tradicional".

Os elementos estão todos aí: o egoísmo, o obscurantismo, a militância fanática, o messianismo, um marido exercia cargo no governo do PT até AGOSTO de 2014, as relações estranhas com empresários.

Fora a ausência de uma base parlamentar que ainda é necessária no Brasil. Caso seja eleita, seus milhões de votos em seis meses não valerão nada sem apoio no Congresso. Sabem pra onde ela vai correr? Isso mesmo, para o bom (pra eles) e velho PMDB e para o PT, que a essa altura vai até tomar santo daime para achar alguma convergência.

Marina Silva é o petismo sem glúten e lactose, mas continua sendo petismo.

Por isso é que faço aqui essa declaração de não-voto. Nem tudo que não é literalmente o PT, deixa efetivamente de ser o PT.



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