quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Comissão de qual verdade?

Quando digo que sou contra essas comissões da verdade geralmente aparece alguém escandalizado "noooossa, como assim você é a favor das torturas da DITADURA?".

Antes de mais nada não creio nessa nova dualidade imposta que mostra os militares como o Coiote e os "guerrilheiros da democracia" como o Papa-Léguas (ou Piu-Piu e Frajola, se preferir). 

Caso os ches brazucas tivessem conseguido levar sua poderosa guerrilha de Brancaleone à vitória, o que aconteceria no Brasil provavelmente seria parecido com o que aconteceu em Cuba, quando gente da mesma laia tomou o poder em nome de "um mundo mais justo".

Como não foi isso que aconteceu e eles levaram uma peia, fica essa imagem de "perseguidos por um regime brutal", quando todo mundo sabe que eles TAMBÉM queriam implantar um regime brutal, só que a seu favor.

Só que o tempo passou, a democracia plena foi restabelecida e hoje eles chegaram ao poder por vias democráticas somente para solapar diariamente essa democracia logo em seguida. Sem contar essa forma peculiar de encarar o exercício do poder como se fosse a gangue do Billy the Kid saqueando uma diligência da Wells Fargo.

Voltando ao assunto, creio que se é para investigar, TODOS os crimes deveriam ser investigados, mas nem é essa a minha razão por ser contra essas comissões da versão de um dos lados da suposta verdade.

A razão disso é que a transição brasileira para a democracia aconteceu sem tiros ou revoluções, fruto de uma negociação entre uma oposição eleita por voto direto - em grande parte composta pelo atual PMDB, aliado do PT - e o governo militar que entregava o poder voluntariamente (pressionado pelas ruas, mas ainda assim voluntariamente).

A Lei da Anistia, portanto, foi um acordo estabelecido livremente para dar fim a um ciclo da história e iniciar um outro, com eleições diretas para todos os cargos. Foi votada e aprovada e nela reside não só a base, como também a legitimidade da Nova República.

Muita gente boa voltou ao país e retornou para a política graças a ela. Muita gente ruim passou uma semana em cana e o resto do tempo bebendo chopp em Ipanema e hoje ganha bolsa-ditadura graças aos desdobramentos dela.

Ignorar a Lei da Anistia é ignorar a legitimidade da abertura arquitetada e executada por gente do peso de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, e a legitimidade das nossas próprias instituições democráticas. Ignorar a Anistia é abrir a porta para ignorar qualquer coisa em nome de um suposto "bem maior" ou de um senso de "justiça" que está longe de ser unanimidade entre os brasileiros.

A segurança jurídica, que já não é o forte da esquerda, fica ainda mais comprometida.

Sou contra comissões da verdade e julgamentos de "torturadores" porque se esses caras que hoje defendem isso estão tendo a audácia de rasgar a Anistia e pisar no calo dos MILITARES, o que você acha que eles serão capazes de fazer com os SEUS direitos civis caso achem que isso servirá a um "propósito maior"?

Nada mais estará fora do alcance dessa gente que faz qualquer coisa por "um mundo melhor", menos algo que preste.
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