quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O dia seguinte

Em Porto Alegre Joana acordou um pouco atrasada para o trabalho. Tomou seu café da manhã correndo, foi até a garagem, ligou o carro que ainda estava sendo pago, enfrentou um engarrafamento, bateu seu cartão, atendeu seus clientes, foi almoçar, de noite fez musculação na academia, voltou para casa, tomou um banho e foi assistir um filme antes de dormir.

Em Manaus, João acordou um pouco antes da gaúcha Joana. Foi dar uma corrida nas ruas do seu bairro, comeu uma salada de frutas enquanto lia sobre o novo escândalo político no jornal, esperou a namorada passar em frente de casa para dar uma carona para ele até o aeroporto, já que viajaria para São Paulo a trabalho. Fez seu check-in, bebeu uma Coca Light, chegou em Congonhas e foi direto para uma reunião de onde só saiu tarde da noite, chegando no hotel cansado, doido pra dormir antes de conversar com a namorada ao telefone.

Assim como Joana e João, vários outros Pedros, Marias, Paulos, Isabéis, Marcus, Lauras, Rodrigos, Marianas e mais quantos nomes você puder imaginar viveram suas vidas normalmente. Contas para pagar, problemas, conversas, risadas, compras, projetos, dietas, planos, sessões de cinema, etc.

A diferença é que na véspera um leilão havia concluído a privatização da Petrobras e como nenhum desses cidadãos ocupava algum cabide de emprego político na estatal, suas vidas continuavam as mesmas.

O Brasil continuava o mesmo, João Pessoa continuava linda, o Rio continuava belo e caótico, São Paulo continuava não podendo parar e a turma de Brasília continuava ignorando a inteligência do resto do país.

O mundo, enfim, estava todo ali. O céu, o mar e as montanhas. Tudo exatamente ali.

Não é adivinhação, é fato.

No dia seguinte ao que venderem a Petrobras, o brasileiro vai acordar e ver que o seu saldo bancário continua o mesmo, que o universo não acabou e que passou décadas sentindo medo do nada.
0 Comentários