terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Estado é laico, não é socialista, comunista, marxista, ateu, pé no saco

O Estado ser laico não quer dizer que ele vá necessariamente renegar valores culturais que estejam também ligados à religiosidade do seu povo. Parece uma platitude, mas nestes tempos doidos em que vivemos, todo esclarecimento é necessário.

Um Estado não brota do nada. Um país, seu território, símbolos, população, hábitos, etc. não é algo dado, que existe e existiria independente de uma construção humana. Como tal, este Estado é a soma dos que vivem nele e geralmente terá a "cara" da maioria desse grupo que vive nele e vai moldando-o através dos tempos.

Não é por outra razão que possuímos certos conceitos, como "o americano", "o argentino", "o russo". Tais tipos ideais (estereótipo seria a palavra correta, mas o termo ficou tão batido que é chato usá-lo) só existem porque tal povo tem tal cara, ainda que nem todo mundo seja exatamente daquele jeito.

O brasileiro já encontra dificuldade aí. Não por ter uma maioria miscigenada, mas porque desde o berço aprende que "brasileiro é tudo, indígena, branco, preto, amarelo", o que acaba não sendo nada.

Mas não é esse o assunto, o assunto é outro.

Ainda que seja um país heterogêneo racial e culturalmente, o Brasil possui um traço marcante: o cristianismo. Além disso é um dos maiores países católicos do mundo.

A maioria dos brasileiros, portanto, tem esse "tipo", que é o cristão. Isso não quer dizer que todos sejam, que todos tenham que ser e nem que aqueles que não o são estejam errados, trata-se apenas de um fato entre tantos.

E como tal, essa maioria não pode e nem deve suprimir direitos da minoria, mas tem direito de ser representada, não havendo mal algum nisso. Por esse motivo quando uma parva como a Luciana Genro aparece num debate presidencial se comportando como uma piqueteira de DCE e diz que não vai chamar o pastor Everaldo de "pastor" porque o "Estado é laico", dá vontade de quebrar a televisão.

Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra. Enquanto o pastor Everaldo não quiser transformar o país numa sucursal de sua igreja e obrigar todos os cidadãos a seguir sua fé - como fazem, por exemplo, os terroristas do Hamas adorados pelo PSOL - ele está no seu pleno direito de se apresentar como pastor e defender valores relativos à sua religião.

O Estado, repito, não pode suprimir direitos baseado na vontade arbitrária de uma maioria, por mais legítima que ela seja, como acontece na Venezuela onde o chavismo solapa a democracia transformando opositores em cidadãos de segunda classe, mas também não pode condenar a maioria à ausência de representação apenas pelo seu caráter numérico, numa ditadura às avessas, desta vez das minorias.

É por isso que defender que a união entre gays não se chame "casamento", defender que não se aplique aulas "anti-homofobia" nas escolas, pregar valores de família, ou ética, ou honra, que sejam inerentes à fé cristã, não fere em nada a laicidade do Estado, pois trata-se de representação de uma parcela da população que faz parte dele.

Quando a esquerda pega essa bandeira e sai por aí berrando (eles nunca falam, só berram) que o "Estado é laico", eles não defendem de fato a proteção daqueles que fazem parte da minoria não-religiosa, mas procuram, como sempre, interditar o debate.

A política é, dentre tantas coisas, a arte de equilibrar vontades distintas, de acomodar conflitos, de fazer com que todos sintam-se representados nas estruturas da sociedade.

Um cristão tem direito de votar num deputado que defenda valores caros à ele, assim como um gay pode votar no Jean Wyllys se quiser (ainda que eu não entenda o porquê, já que o ex-BBB com sua personalidade caricata mais fere do que ajuda a causa dos direitos civis), um judeu pode votar num candidato judeu, etc., etc. Esta é a essência da democracia representativa, tão desprezada pela esquerda, que por isso mesmo se recusa a aceitar suas regras.

Ao dizer que o "Estado é laico" e por isso padre não deve se meter em política, pastor não deve se meter em política, símbolos e valores religiosos não devem se meter em política, a pessoa está dizendo para um imenso contingente de cidadãos que eles têm menos direitos do que os outros, o que é basicamente o que os esquerdistas defensores da laicidade-hard acusam os religiosos de fazer, só que, como sempre, no caso dos esquerdistas é "por um mundo melhor".

Não se constrói nenhum mundo melhor calando bocas, muito menos para deixar um monte de gente que não chama o pastor Everaldo de "pastor", mas chama o frei Betto de "frei" ficar por aí falando bobagem sozinha.





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