quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Malufinho

Anthony Garotinho é uma espécie de Paulo Maluf do Rio de Janeiro. Não importa quantas dúvidas e certezas recaiam sobre ele, quantas condenações, escândalos, desvios, absurdos, sempre existirá um eleitorado fiel sempre disposto a sufragar o ladino.

Mal o comparei ao Maluf e já me desdigo. O paulista tem em seu currículo algumas obras de impacto, algum legado, ainda que o ônus supere em muito todos os bônus que pudesse ter acumulado. Garotinho não tem nada.

Fica resolvido assim: o Maluf do Rio é ainda pior do que o Garotinho de São Paulo.

Adiante.

As cidades do Rio de Janeiro e Niterói, antigas capital federal e estadual, estão separadas pela Baía de Guanabara, carinhosamente apelidada de "poça" pelos nativos.

Até o início da década de 1970, a travessia entre as duas cidades era realizada por balsas que levavam os veículos de um lado para outro. As filas, já naquela época, incomodavam os motoristas e uma ponte cobrindo este percurso era um projeto já desde 1875. Só no governo militar é que o projeto saiu do papel e em 1969 iniciavam-se as obras que seriam concluídas em 1974. Finalmente era possível cruzar a Baía de Guanabara em poucos minutos, através dos 13 quilômetros da ponte.

Por que contei isso? Porque caso na época o governante fosse Anthony Garotinho, a solução provavelmente não seria uma ponte, mas duas ou três balsas extras e a redução da tarifa para R$1,00, com direito a apresentações de pagode durante o percurso nos finais de semana.

Essa certeza vem do histórico da família Garotinho em lidar com problemas reais utilizando soluções pirotécnicas. No dia 18 de janeiro de 2000, um duto da Petrobrás que ligava a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao terminal Ilha d'Água, na Ilha do Governador, rompeu-se provocando um vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo combustível nas águas da baía. A mancha se espalhou por 40km². Fauna, flora e a atividade de pescadores foram comprometidas de forma severa.

A Petrobras pagou ao governo do Rio a ridícula quantia de 18 milhões de reais a título de indenização pelo acidente, mas o que já seria muito ruim conseguiu piorar. O então governador Anthony Garotinho usou esse dinheiro não para recuperar a natureza destruída, para acelerar o programa de despoluição da Baía (uma lenda que jamais se concretiza) ou para algum tipo de atividade compensatória para os pescadores. O dinheiro foi usado para construir um lago artificial às margens da poluída Praia de Ramos, o Piscinão de Ramos.

Ao invés de limpar o mar, a água imunda era tratada e enviada para o tal piscinão, onde as pessoas tomavam banho e aproveitavam a praia artificial do seu entorno. Alguns anos depois, já abandonado, o piscinão virou um amontoado de lodo que de vez em quando é recuperado pelo governo para ser abandonado novamente logo depois.

O biólogo Mário Moscatelli o chama de "puxadinho ambiental". Nada contra, o povo precisa se divertir, mas aquele dinheiro todo foi gasto para pão e circo, porque a Praia de Ramos em si continua imunda, o entorno abandonado e o bairro violento.

Junte-se a isso os "restaurantes populares" (se o povo tem fome, vamos distribuir comida a R$1,00), os "hotéis populares" (se as pessoas dormem na rua, vamos hospedá-las a R$1,00) e o "cheque cidadão" (se as famílias ganham mal, vamos vincular uma distribuição de dinheiro a pastores evangélicos aliados e pronto), e você percebe que o modo Garotinho de governar é o improviso, a ação que visa a propaganda, a empulhação.

Como podem ver, o Maluf do Rio é bem pior, mas incrivelmente conta com um eleitorado ainda mais fiel. Talvez isso explique porque o Rio de Janeiro, ainda que tenha sido a sede de uma final de copa do mundo e venha a ser a sede de uma olimpíada, continua em franca decadência quando pensamos na qualidade de vida que o estado oferece.

Ninguém abriga tantos eleitores de gente como o Garotinho assim impunemente.
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