quinta-feira, 30 de outubro de 2014

E se a eleição no Brasil fosse como a dos Estados Unidos?

Separar o Brasil? Culpar o Nordeste pela vitória do partido do mensalão? Xingar paulistas? Entrar na onda petista de dividir para conquistar? Afinal, o que deu errado para o Aécio e para o país que nos levou ao desastre Dilma II?

Observando os arranca-rabos variados nas redes sociais, imaginei como seria caso o Brasil adotasse o sistema de colégio eleitoral que é usado nas eleições americanas. Para quem já esqueceu ou ainda não sabe, nos Estados Unidos não se contam simplesmente os votos e a vitória é declarada para o candidato que conseguir a maioria.

Lá os estados recebem o que chamam de "votos eleitorais" de acordo com a sua população e tais votos se reúnem num colégio eleitoral que, aí sim, escolhe o presidente. Simplificando ao máximo, se um candidato ganha a eleição em Nova York por um voto que seja, todos os votos eleitorais daquele estado vão para ele e assim por diante com cada um dos estados. Como são 538 votos eleitorais, aquele que atingir o número mágico de 270 garante os votos necessários para ser eleito presidente no colégio eleitoral.

As diversas formas de atingir este "número mágico" orientam os gastos e os esforços de campanha. Por exemplo, a Califórnia é um estado que há décadas vota com o Partido Democrata. Sendo assim, os republicanos não gastam tempo e nem dinheiro ali, porque sabem que os 55 votos eleitorais californianos irão para os democratas. O mesmo acontece de forma inversa no Texas.

Ao fim, a campanha se restringe aos chamados "estados campos de batalha", onde o eleitorado pende um ano para um partido e dali a quatro anos para outro. As contas não são feitas a partir de milhões de votos, mas de quantos votos eleitorais cada um precisa para atingir os 270.

Mas voltando ao Brasil: e se adotássemos tal sistema, será que algo mudaria? Para fazer tal exercício de suposição - lembre-se de que é algo feito a título de curiosidade, sem pretender algum valor científico - estabeleci paralelos entre os estados de lá e os daqui utilizando o tamanho da população de cada um. 

São Paulo assim ficou com o mesmo peso da Califórnia e o Acre com o mesmo peso do Alasca (por incrível que pareça além de serem unidades distantes, possuem populações de tamanho bem semelhante) e assim por diante. 

Um detalhe: como o Brasil possui 26 estados e o Distrito Federal enquanto os Estados Unidos possuem 50 estados e o Distrito de Columbia, resolvi, por preguiça mesmo, não redistribuir os 538 votos eleitorais por aqui, mas diminuir nosso colégio eleitoral para 352 votos eleitorais, sendo necessários 177 destes votos para vencer.

Desta forma os estados brasileiros ficaram associados assim:  São Paulo com 44.169.350 habitantes e a Califórnia 38.332.521 habitantes e 55 votos eleitorais. Minas Gerais com 20.777.672 habitantes e o Texas 26.448.193 habitantes e 38 votos eleitorais.

Rio de Janeiro 16.497.395 e Nova York 19.65.127 e 29 votos; Bahia
15.150.143 e Florida 19.552.860 e 29 votos; Rio Grande do Sul 11.228.091 e Illinois 12.882.135 e 20 votos; Paraná 11.112.062 e
Pennsylvania 12.773.801 e 20 votos.

Até aqui a ordem obedece rigorosamente a ordem de densidades populacionais do Brasil e dos EUA, mas quando chegamos em Ohio (11.570.808 habitantes), que seria o próximo da lista, teríamos Pernambuco (9.297.861 habitantes), o que é uma diferença muito grande, assim Pernambuco foi associado à Georgia (9.992.167 habitantes) e seus 16 votos eleitorais.

A seguir Ceará (8.867.448) e New Jersey (8.899.339) e 14 votos; Pará (8.101.180) e Virgínia (8.260.405) e 13 votos; Maranhão (6.861.924) e Washington (6.971.406) e 12 votos; Santa Catarina (6.734.568) e Massachusetts (6.692.824) e 11 votos; Goiás (6.551.322) e Indiana (6.570.902) e 11 votos.

Paraíba (3.950.359) e Oregon (3.930.065) e 7 votos; Espírito Santo
(3.894.899) e Amazonas (3.893.763) ambos a Oklahoma (3.850.568) e 7 votos. 

Rio Grande do Norte (3.419.550), Alagoas (3.327.551), Mato Grosso (3.236.578) e Piauí (3.198.185) todos a Connecticut (3.596.080) e 7 votos.

Distrito Federal (2.867.869) e Utah (2.900.872) com 6 votos; Mato Grosso do Sul (2.630.098) e Nevada (2.790.136) e 6 votos; Sergipe (2.227.294) e Novo México (2.085.287) e 5 votos; Rondônia (1.755.015) e  Virgínia Ocidental (1.854.304) e 5 votos.

E finalmente Tocantins (1.502.759) e Idaho (1.612.136) com  4 votos;  Acre (795.145) e Alasca (735.132)com 3 votos; Amapá (756.500) e Dakota do Norte (723.393 ) e 3 votos;  Roraima (500.826) e Wyoming (582.658) e 3 votos.

Foi curioso fazer isso e observar como tantos estados nos dois países podem ser parecidos, mas vamos ao que interessa: Dilma venceu em Minas Gerais (38),  Amazonas (7), Pará (13), Amapá (3), Maranhão (12), Pernambuco (16), Tocantins (4), Piauí (7), Ceará (14), Bahia (29), Rio de Janeiro (29), Sergipe (5), Alagoas (7), Paraíba (7) e Rio Grande do Norte (7), totalizando imaginários 198 votos eleitorais.

Aécio venceu em São Paulo (55), Acre (3) Rio Grande do Sul (20), Roraima (3), Rondônia (5), Mato Grosso (7), Goiás (11), Mato Grosso do Sul (6), Distrito Federal (6), Santa Catarina (11), Paraná (20) e Espírito Santo (7), somando 154 votos eleitorais.

Como se nota, caso a eleição utilizasse esse sistema, a derrota do tucano não seria tão apertada quanto foi no voto popular.

A outra pergunta que fiz é: a culpa foi mesmo do Nordeste? A resposta é sim e não. Sim porque caso a Bahia (29) ou o Ceará (14) e mais um estado pequeno fossem movidos para a coluna de Aécio, este passaria o número mágico e seria eleito presidente.

Mas muitos destes estados não são estados considerados "campo de batalha" no Brasil. Um tucano não vence na Bahia desde 1998 e no Ceará desde 1994. 

O contrário acontece com Minas Gerais que ainda que não seja estado "seguro" para o PSDB como é, por exemplo, São Paulo, já que foi vencido pelo PT e pelo PSDB em diferentes anos,  este ano possuía uma característica especial por ser um estado governado pelo grupo político do tucano há 12 anos. 

Este sim, era um estado onde o PSDB tinha obrigação de vencer e caso vencesse adicionaria 38 votos eleitorais em sua coluna, passando dos 177 necessários para vencer.

E aí é que a coisa fica interessante mesmo, porque caso obtivesse vitória pela margem esperada em Minas no voto popular, talvez Aécio tivesse vencido a eleição mesmo pelo nosso sistema.

Veja que não falei de Rio de Janeiro (na coluna do PT desde 1998) ou do Paraná (vencido pelo PSDB em 5 das últimas 6 eleições), apenas de estados que eram viáveis tanto para um quanto para outro partido.

Lógico que fatores como Bolsa Família, terrorismo eleitoral, festival de calúnias, campanha suja, entre outros, influenciam bastante no resultado, mas a verdade é que Aécio perdeu a eleição TAMBÉM no Nordeste e não POR CAUSA do Nordeste.

Uma das lutas da oposição agora deve ser incorporar  a transformação do Bolsa Família em política de Estado, assim jamais alguém fará terrorismo eleitoral com isso outra vez. 

Consegue imaginar algum candidato ameaçando aposentados com o fim do benefício? Todos ririam na cara dele. Pois é, que seja assim com o Bolsa Família enquanto este for necessário para mitigar a miséria no país. Esta sim é uma proposta que abre caminhos para a oposição ampliar a votação em redutos do PT. Vamos à ela e a outras tantas que estão aí a nossa espera.

Pronto, provei que o Nordeste sozinho não tem culpa de nada, agora podemos mudar de assunto e nos concentrar em tirar o PT do poder? 

Obrigado.






0 Comentários