quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Um Everest de estrume racialista

"Brasileiros não sabem o que é racismo", iniciava o relato que me impressionou. "Tenho vergonha desses que se fazem de oprimido (...) gozando do bem-estar social".

A maioria das pessoas quando lê algo assim já pensa: deve ser uma descendente de alemães chamada Steffi, loira de olhos azuis e revoltada porque perdeu uma vaga no curso de medicina para algum cotista que tirou 300 pontos menos que ela na prova de seleção que avalia méritos acadêmicos e não a quantidade de melanina na pele.

Mas aí é que a coisa fica boa. Dizia também a autora que brasileiros "não sabem o que é ter que mudar mais de 18 vezes em 5 anos por ser de outra etnia e falar dialeto dialeto diferente, com medo de estupro e morte". A partir daí a coisa fica capciosa, já que não existe esse tipo de coisa no Brasil, nem nos Estados Unidos, nem na Europa, nem em qualquer outro país racista-machista-homofóbico-burguês-opressor.

Onde seria? Em Moçambique, na África. A pessoa que escreveu isso é uma negra natural daquele país que veio estudar no Brasil e ficou um tanto horrorizada com o coitadismo que infesta as terras tupiniquins.

Africanos vivendo na África se matam aos montes. Estupram, escravizam, mutilam, oprimem, torturam, destroem tudo em volta. Descendentes de africanos fora da África enfrentam todos os problemas que qualquer cidadão de qualquer país enfrenta de acordo com as particularidades de cada nação. Nada mais.

Podem ser pobres, podem ser ricos, andam em transportes públicos bons ou ruins, seus filhos estudam em colégios e suas famílias se tratam em hospitais públicos ou privados, enfim, não há lei ou regra imposta que diga que um descendente de africanos (nem todos são necessariamente negros, que fique bem claro) não tem direito ao que todo o resto tem direito ou que precisa se mudar para fugir de estupro e morte.

As leis racistas dos Estados Unidos e a ausência de amparo legal neste sentido no Brasil são passado, assim como a escravidão, que acabou há mais de um século. Hoje o fato é que um número esmagador de africanos vive pior na África do que seus descendentes que vivem no resto do mundo.

Mas a indústria do coitadismo, a demagogia racial e o ressentimento de gente que vive de dividir pessoas insiste em tratar negros como pessoas que saíram da canga ontem e que ainda precisam sentar nos fundos do ônibus.

O eterno oprimido, essa figura tosca e malandra que pulula no Brasil, é uma vergonha para aquelas pessoas ao redor do mundo que possuem problemas reais, que fogem da violação física e da morte pelo simples fato de ser quem são.

A indústria da pena e da culpa arma uma gritaria maior quando alguém fala a palavra "macaco" num estádio de futebol do que quando o Boko Haram sequestra centenas de meninas negras para vendê-las como mercadoria.

Essa desconexão com o planeta dos que não sofrem de esquerdopatia-revoluço-anquilosante-crônica é que gera aberrações como o homem mais feminista do que as mulheres ou o branco mais ressentido com a tal "dívida histórica" do que muitos negros. Os "defensores" acabam mais ofendidos e histéricos do que aqueles que supostamente "defendem".

É preciso muitas vezes ter contato com um oprimido de verdade para ver como a situação é ainda pior do que pensamos, como o ridículo é ainda maior. O politicamente correto de perto parece um monte de estrume, mas quando nos afastamos e temos uma perspectiva, vemos que não é um simples monte, é um Everest.



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