quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Uber: a liberdade econômica na era da internet


O que seria de nós sem as coincidências, né? Outro dia estava assistindo um seriado de TV que acompanho desde a primeira temporada (The Good Wife) quando um dos personagens precisou provar que não dirigiu embriagado e para isso sacou o celular e mostrou o log do Uber.

Fiquei curioso com o tal de Uber, achando que era algum aplicativo de caronas que só funcionaria bem em lugares com menos déficit civilizatório do que o Brasil, mas não, é um aplicativo onde motoristas particulares que se cadastram como prestadores de serviço cobram para levar o cliente até onde ele deseja.

O usuário solicita um carro, os motoristas próximos são localizados via GPS, um deles se oferece, o aplicativo envia os dados como nome, foto e placa do carro, o motorista pega o usuário e leva até onde ele quer. Os pagamentos são feitos via cartão de crédito e autorizados no ambiente do aplicativo. Tudo simples, rápido, eficiente e personalizado.

Eles não ficam circulando pelas ruas, não fazem ponto em lugar nenhum, apenas estão passando por ali e um aplicativo avisa que uma pessoa na região precisa de carona e está disposta a pagar por ela. É isso, uma espécie de carona paga, uma idéia sensacional, dessas que só mesmo a internet poderia proporcionar.

A coincidência que falei no início se dá por conta de no dia seguinte ao que eu assisti o seriado a Cora Rónai escreveu sobre o Uber em sua coluna no Globo. No artigo, Cora conta que onde chega o Uber causa confusão, porque prefeituras, taxistas e demais zangões do transporte público não ficam nada felizes com aquela invasão no seu "galinheiro", o que em se tratando de Brasil é um termo mais do que apropriado.

Taxistas dizem ser injusto porque é uma forma de concorrência desleal, já que os motoristas particulares que dão as tais caronas remuneradas não pagam impostos e taxas que incidem sobre eles. As prefeituras e demais órgãos governamentais se doem porque não metem a mão nesta relação através da cobrança de impostos. Alguns usuários, acostumados ao Estado babá, se perguntam "quem fiscaliza estes motoristas". Enfim, o estatismo se manifesta através de espasmos corporativistas, arrecadatórios e infantilizados.

O fato é que os próprios usuários fiscalizam o prestador de serviço do Uber. Suas corridas são armazenadas, eles recebem pontuações pelo serviço prestado e podem perder clientes caso não sejam honestos, cordatos e prestem um serviço de qualidade, coisas com as quais taxistas e empresas de ônibus não precisam se preocupar, já que são protegidos pelo monopólio estatal de concessões.

O nome disso é liberdade, é papo reto, são duas pessoas se relacionando economicamente como adultas ou, como Cora tão bem chamou, uma economia P2P. A-B, sem o E, de Estado, se metendo para burocratizar, entupir de legalismos e, claro, cobrar caro pelo que não é solicitado, ou seja, sua "proteção".

Tal coisa não acontece impunemente, lógico. A prefeitura petista de São Paulo simplesmente declarou que o aplicativo é ilegal e chegou a apreender veículos, no Rio a Delegacia de Crimes de Informática investiga o aplicativo como se a polícia tivesse alguma coisa a ver com uma relação econômica entre dois cidadãos que não envolve nenhum ilícito. Mas é só o começo, certamente os ataques por parte do estatismo virão cada vez mais fortes conforme o aplicativo se popularizar.

E por quê? Simples, porque quanto mais Estado, menos liberdade e o Estado depende da asfixia dos negócios para cobrar cada vez mais caro por doses cada vez menores de oxigênio.

O Uber, assim como outros serviços como o Airbnb (que aluga hospedagem na casa das pessoas também numa relação direta entre cliente-prestador de serviço), é um sopro de brisa fresca num ambiente asfixiante. São as pessoas tomando conta das próprias vidas, usando seu dinheiro e seus automóveis para relações particulares que não interessam a mais ninguém além delas mesmas.

Se eu posso dar carona para um amigo e rachar a gasolina sem que o Estado se meta nisso, se posso convidar alguém para ficar na minha casa durante uma viagem de férias, também tenho o direito de dar carona para qualquer um e ser pago por isso. Assim como alugar o sofá da sala.

O Estado já meteu a mão no meu bolso quando eu comprei o carro e o sofá, só falta querer determinar quem eu posso levar num e quem pode deitar no outro.
0 Comentários