sábado, 13 de dezembro de 2014

Carapuçalândia


O Brasil é a terra das carapuças. Praticamente todo brasileiro é um faniquito pronto para explodir a qualquer momento, muito porque praticamente todo brasileiro pensa que é o centro do universo e que tudo o que se fala é direcionado a ele pessoalmente, mesmo que não seja.

Não é a toa que talvez esta seja a capital mundial das indiretas. Você pode falar o que quiser, mesmo que seja um absurdo como "meu total desprezo a quem pratica necrofilia com focas na Antártida", que vai aparecer alguém dando chilique:

- Tá falando comigo, é? Peguei aquela estagiária do jornal mas você não tem nada a ver com a minha vida.

Por isso um dos esportes nacionais é "não generalizar", porque assim você tenta ofender o menor número de pessoas possível, como se isso fosse realmente possível.

Mas ao contrário do que se pensa, generalizar não pode nem deve ser colocado ao lado de gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e orgulho como o oitavo pecado capital. Quando generaliza você pega aspectos em comum sobre um determinado grupo e os utiliza para fazer um perfil aproximado deste grupo.

Pormenorizar, falar de cada exceção, só transforma sua crítica e/ou análise em uma assembléia estudantil, que fala, fala, fala e não diz coisa alguma. Você não precisa e nem deve perder tempo em cada minúcia de cada exceção só para não ofender o mala sem alça que vai se ofender de qualquer jeito.

Quando digo que ciclistas são ciclochatos que usam bicicletas de 3 mil reais e chamam o dono do Fusca de 1.500 reais de "carrocrata insensível" sei perfeitamente que nem todo ciclista anda numa bicicleta cara, nem todo ciclista é hipster, nem todo ciclista mora em bairros de ricos, nem todo ciclista é de esquerda, etc., etc., mas cada um desses personagens existe de fato isoladamente e, em conjunto, forma esse tipo ideal que é o ciclochato.

E assim acontece com "o esquerdopata", "o revolucionário do Toddynho", "a feminista sovaquenta histérica", "o chato da rodinha de violão". Claro que existe um ou outro esquerdista que não é um insuportável 24 horas por dia, existe feminista que não é lunática e de vez em quando até eu e você podemos curtir uma rodinha de violão, mas isso não absolve os chatos e estes merecem ser apontados. Só o que não permite exceção mesmo são os eleitores da Luciana Genro, que são todos, sem escapatória, malas sem alça de primeira.

Por isso é bom que as pessoas parem de se imaginar como sendo pessoalmente o alvo de críticas a um grupo do qual elas fazem parte, porque elas não são o grupo, muitas vezes, inclusive, elas são parte desprezível e irrelevante deste grupo. São, no máximo, dano colateral.

O coleguinha que faz um post ou fala numa conversa fazendo piada sobre gente que acredita em revolução do proletariado e mais valia não quer sacanear você pessoalmente. Quando alguém diz que leitores da Carta Capital são uns palermas, não está TE chamando de palerma na cara. Você até pode ser um, claro, mas não aja como se tivessem xingado a sua mãe.

Não precisa sair correndo para xingar de volta, dar piti e terminar provando que você é mesmo um palerma, algo que até então o mundo não tinha conhecimento.

Na dúvida vale a regra: o mundo não te persegue, ele apenas não tem a menor idéia de quem você seja e por isso mesmo não faz a mínima questão de te agradar.
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