segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Justo entre as nações

Em 1940 a França era um país dividido. Ao norte o país que seria invadido pela Alemanha nazista se preparava para resistir, ao sul o governo colaboracionista se instalava em Vichy, levando consigo todo o corpo diplomático.

A perseguição aos judeus então já era bastante notória, levando muitos deles a procurar fugir da Europa para salvar suas vidas. Só que esta não era uma tarefa fácil, já que fascistas - os de verdade, não esses que palermas em universidades federais e partidos de esquerda chamam seus opositores - no mundo inteiro colaboravam como podiam com o regime de Hitler.

Vistos diplomáticos para judeus eram algo dificílimo, mas muita gente se dispôs a ajudar, entre eles um embaixador que emitia vistos "irregulares" de próprio punho, beneficiando não apenas judeus como também homossexuais, ciganos e outras minorias perseguidas pelo III Reich.

Seu envolvimento pessoal foi importantíssimo, já que para a emissão de tais vistos era necessário apresentar uma série de documentos impossíveis de conseguir para estes refugiados que não eram sequer considerados cidadãos em seus países de origem. Estes documentos eram exigidos para, na prática, inviabilizar a fuga destes "indesejáveis". Para piorar a situação, na época os vistos informavam a "origem étnica" do estrangeiro,

Sabendo que aquela gente certamente iria morrer se não conseguisse fugir, este embaixador deixou Paris rumo a Vichy e pelo caminho ia emitindo vistos - dizem que cerca de 500 - e assinando passaportes de refugiados sem exigir taxas, transferências bancárias, declarações ou atestados. O embaixador também omitiu em todos estes vistos a tal origem étnica, impedindo assim que fossem identificados como judeus.

Não se tratava de gente rica ou importante, mas de gente comum que, desesperada, buscava ajuda onde quer que a encontrasse. Por estas ações o diplomata foi repreendido pelo seu governo e proibido de emitir mais vistos, mas ainda assim emitiu vários com data retroativa à proibição, desobedecendo ordens e livrando mais algumas pessoas dos campos de concentração.

Seu país terminou entrando na guerra e notícias de sua resistência à invasão da embaixada e posterior internamento na Alemanha o transformaram em herói nacional. O governo autoritário, no entanto, não estava feliz com aquela fama repentina e fez com que a censura sumisse com seu nome das páginas dos jornais.

Ao final da guerra, foi convidado para chefiar uma delegação na primeira Assembléia das Nações Unidas, sendo o primeiro embaixador de seu país a discursar nesta que foi precursora da ONU.

Morreu em 16 de abril de 1954, parcialmente recuperado do ostracismo por seus colegas de carreira diplomática, mas ainda distante do reconhecimento do grande público. Em 10 de dezembro de 2003, o Estado de Israel o proclamou "Justo entre as Nações", título concedido a não-judeus que ajudaram judeus a fugir dos horrores do Holocausto. Seu nome está inscrito no memorial do Yad Vashem, a Autoridade de Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto, sendo um dos dois únicos de seu país ali presentes.

Luis Martins de Sousa Dantas, brasileiro, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas, é mais um dos heróis esquecidos deste grotão do sul do mundo onde alunos de escolas variadas aprendem a venerar porcos assassinos como Che Guevara ou facínoras como Fidel Castro, mas se esquecem de reconhecer aqueles seus conterrâneos que lutaram verdadeiramente em nome da liberdade e da humanidade.

Este Brasil das milhares de avenidas Getúlio Vargas e escolas Mariguella, dos Lulas pais da pátria e Dilmas com suas campanhas sujas, certamente não merece Sousa Dantas, mas ainda assim nunca precisou tanto de muitos como ele.



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