sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O que há de pior


O petróleo é nosso, bradam nacionalistas e esquerdopatas de todos os cantos. A Petrobras, "maior empresa brasileira", é patrimônio de todos, dizem petistas para logo depois advertirem o eleitor sobre os perigos da "privataria".

"O Estado sou eu", disse Luís XIV. "A Petrobras é o Brasil e o Estado é a Petrobras", poderiam dizer sindicalistas, blogueiros a soldo, empreiteiros camaradas, artistas patrocinados e o resto da turma da boquinha.

E é mesmo. Nada é mais parecido com o combalido, falimentar, inchado, ineficiente e corrupto Estado brasileiro do que sua "maior empresa", esta petrolífera que o PT está conseguindo a proeza de quebrar.

Essa semana o melhor jornal holandês, o NRC Handelsblad, publicou uma reportagem de duas páginas com a simpática manchete "Petrobras, símbolo de tudo o que há de pior". Se a Petrobras é "nossa", se a Petrobras é o Brasil, deduza você mesmo o que é "simbolo do que há de pior".

Não foi notícia aqui, claro. Mas se fosse certamente iria causar gritaria.

Ia aparecer gente dizendo que o Brasil foi ofendido, que os "gringos" a serviço da CIA querem quebrar a empresa para depois comprá-la a preço de banana e "roubar o pré-sal", ia ter de tudo, até o Darth Vader apareceria em algum site da "mídia progressista".

Mas o fato é: uma empresa dominada pela corrupção, de onde bilhões do bolso do pagador de impostos vão parar nos bolsos de bandidos de gravata, que vende uma das gasolinas mais caras do mundo ao mesmo tempo em que o preço do combustível cai no resto do planeta, que é um verdadeiro cabide de empregos para inúteis a serviço do partido, fora o resto, isso é ou não é "símbolo do que há de pior"?

Símbolo de um Estado caro e ineficiente, de serviços péssimos, de uma qualidade de vida sofrível, de cidades favelizadas, transportes horrorosos, lixo por toda parte, poluição, educação abaixo da crítica, saúde que mata mais do que pelotão de fuzilamento indonésio, enfim, símbolo do que há de pior no Brasil que, infelizmente, é o brasileiro que atura tudo isso, quando ele mesmo não participa.

O brasileiro finge que vive num paraíso de música de Ary Barroso quando mora numa Calcutá cucaracha. E enquanto a maioria limpa não parar de se ofender como se falar a verdade sobre o país fosse um ataque pessoal, continuaremos assim, essa vergonha de dimensões continentais.

Essa crise é uma oportunidade. Não somente de derrubar Dilma Rousseff e defenestrar o PT, mas de não se dar por satisfeito apenas com isso. O "que há de pior" não vai simplesmente acabar no dia seguinte e nem o Brasil vai virar a Noruega só por ter se livrado do PT.

O país estará menos acanalhado, é claro, mas isso só não basta. Precisamos entender, admitir, engolir e vomitar todo o nosso atraso e subdesenvolvimento para longe.

Só assim deixaremos de ser "símbolo do que há de pior".
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