segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Negro de verdade, liberdade de mentira


Inseticida é o nome artístico do vocalista de uma banda de heavy metal. Ele imita o estilo de um grupo sul-africano que defende as origens e a cultura europeias, mais especificamente a identidade de quem é branco.
Só que Inseticida se apaixonou por uma moça que tem a pele negra, como Inseticida só faz mal para os insetos, resolveu assumir o namoro em público.
Uma página no Facebook chamada "Europeus que Pensam Bacana" achou isso uma traição. Postou uma foto de Inseticida com sua namorada negra e uma legenda chamando-o de "brancafricano" e afirmando que ele é um "traidor da raça branca".
Como teve gente que se escandalizou com esse tipo de coisa em pleno ano de 2015, o administrador da página ainda justificou: não dá pra se MISTURAR com pretos.
Terrível, né? Mas você nunca ouviu falar desse caso simplesmente porque ele nunca aconteceu. Se tivesse acontecido mesmo, provavelmente seria manchete no Jornal Nacional, motivo para uma blitzkrieg da OAB e do MP no Facebook, entidades "afro" fariam alguma batucada de protesto e a condenação nacional seria unânime.
Mas calma, não se anime muito.
Esse caso não aconteceu da forma como eu descrevi, mas aconteceu com o "rapper" Emicida - um defensor do PT, do politicamente correto e de mais um monte de coisa imprestável, karma is a bitch - que foi vítima da intolerância dos tolerantes.
Uma página chamada "Africanos de Pensamento Livre" resolveu admoestar o sujeito porque ele "se envolveu com uma branca", agindo como um "negropeu", coisa que não se faz, claro, afinal isso é uma traição à RAÇA. No seu Instagram ele foi acusado de "palmiteiro" (palmitos são brancos) e de "ter chegado na casa grande".
Dessa forma para você ser um "africano" - nascido no Brasil, mas releve - e que pense "livremente", ANTES você precisa ver com os "irmãos" quem pode namorar, com quem pode fazer amizade, o que deve vestir, quais gírias usar, como se comportar, qual opinião defender, etc., etc., etc. Senão eles aparecem e te ensinam a ser "preto de verdade".
Resumindo: se o cara for simplesmente quem ele quiser, será um capacho dos brancos digno de repulsa. Se obedecer cegamente e não contrariar o que se espera dele, será "livre".
Convenhamos, nem os senhores de engenho pensariam em algo tão engenhoso - sem trocadilho - assim para manter um negro na canga.
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