quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O mito da cidade maravilhosa


Nada contra o cara ter a sua carioca-experience: chega no Rio de Janeiro, salta no Galeão e se diverte com o serviço precário - ah, é bagunça organizada - e chega naquele seu hotelzinho que cobra três vezes o que vale.
Se entope de biscoito Globo e mate numa praia lotada e suja, corre do arrastão e termina se achando malandro - "não me pegaram, já sou carioca" - e aplaude o pôr-do-sol que nem um babaca antes de tomar um açaí na casa de sucos com aqueles atendentes tão mal educados que já viraram folclore.
De noite vai pra Lapa ouvir música ruim, beber cerveja ou choppinho caros e sentir cheiro de lixo e urina, na volta é roubado pelo taxista numa corrida superfaturada e termina comendo um podrão na esquina ao lado dos mendigos que dormem em volta do chafariz onde tomam banho.
Sua em bicas o dia inteiro e descobre que no Rio existe o único metrô do mundo que engarrafa - "estamos parados aguardando a normalização do tráfego à frente" - e que não leva a lugar nenhum (não passa na rodoviária, no aeroporto, nos bairros mais distantes).
Nada contra se divertir no Maracanã e descobrir que a infra-estrutura cheia de sobrepreços construída para a copa do mundo só existe no interior do estádio, já que o entorno é favelizado, perigoso e imundo.
O cara pode gritar gol o quanto quiser, cantar que é "Flamengo e tem uma nega chamada Tereza" e andar atrás da barulhenta bateria dos tenebrosos blocos carnavalescos, enfim, toda a liberdade para o turista amigão viver seus 4 ou 5 ou 10 ou 15 dias de carioca antes de voltar para a sua terra.
Mas por favor, só chame isso de "cidade maravilhosa" se você viver o ano inteiro nessa joça e tiver que aturar tudo o que é pitoresco para quem está a passeio infernizando a sua vida diariamente.
Quero ver conseguir.
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