quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Unidos da Coréia do Norte


Vem chegando o carnaval e as cercas de arame farpado vão surgindo por todos os lados. De repente guardas armados começam a tomar conta das ruas e a vigiar tudo o que você faz pelas redondezas. Em alguns dias, agentes secretos se infiltram até em conversas de elevador, reprimindo o menor sinal de dissenso: todo mundo tem que apoiar o novo regime e movimentos de oposição não serão tolerados.
Desfiles tomam conta das ruas, com fileiras de pessoas reduzidas a pixels marchando ao som de tambores e outros instrumentos para uivos da massa ensandecida. Uniformes reluzentes passam em profusão, tanques alegóricos atropelam tudo o que passa pela frente.
A "patrulha de felicidade" fica de olho em potenciais rabugentos, dissidentes e reacionários que ousam não se render ao chamado dos tambores. Ai deles!
Comparações exageradas à parte, o carnaval é, sim, uma ditadura. Gente que não gosta de "bloco" não só fica com receio de dizer que não gosta daquilo, como por medo das recriminações no estilo "Gosta de que então? Passear em museu na Europa?", até vai junto com os amigos, fingindo que se diverte só para não ser conhecido como o "do contra".
O sujeito encostado num canto se sentindo a mais miserável das criaturas no meio de bêbados, homens com o sutiã da irmã e cheiro de sovaco com desodorante vencido, mas ainda assim quando percebe que alguém o vigia de longe, já com a frase de recriminação pronta - "se diverte aí, cara, é carnaval!" - rapidamente capricha naquele sorriso babaca que todo folião tem (ri de quê?) e fica pronto para a foto do Facebook.
Aliás, só essa frase "...mas é carnaval!" já deveria servir de justificativa para proibirem o evento por uns 10 anos, no minimo.
Alguém está urinando no seu pé no meio da rua e você reclama? "Mas é carnaval!". Um pentelho tenta agarrar a menina? "Que isso, é carnaval!". Parar em cima da faixa de pedestres? Tocar uma corneta cretina às 3:00 da manhã? Peidar na farofa? Mijar no guaraná? Defecar no patê? "Ah, é carnaval!".
E já que é assim, trate de gostar, meu amigo, senão a "tropa de choque da folia" chega batendo de cassetete.
Óbvio que muita gente se diverte genuinamente num desfile de bloco ou atrás de um trio elétrico, mas lembremos que a "Tomatina", evento em que todos atiram tomates uns nos outros no meio da rua, o festival do queijo rolante e o arremesso de cabras também divertem pessoas ao redor do mundo e nem por isso são menos ridículos.
O problema é que essas pessoas que se divertem genuinamente não conseguem acreditar que exista outro tipo de pessoa que detesta isso genuinamente. O espanto já começa em letras de músicas como "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é" ou "Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu".
Errado, minha gente. Muita gente boa detesta samba e eu só iria em um trio elétrico sob ameaça de um revólver.
Assim caímos numa situação onde alguém que não goste de: barulho, cheiro de urina, lixo espalhado pela rua, multidões comprimidas em espaços exíguos, gente desconhecida se achando no direito de fazer brincadeiras idiotas como se fosse seu amigo de infância, trânsito engarrafado, ruas interditadas e gringos ávidos por turismo sexual, não necessariamente nessa ordem, se sente até culpado por não gostar de tudo isso sendo recriminado abertamente se ousar dizê-lo.
Não se reúne 20 pessoas no Brasil para derrubar um governo corrupto, mas é fácil juntar uns 100 para olhar cachorro atropelado e milhares para um desastre maior, como um desfile de bloco na orla de Ipanema, por exemplo.
Aos teimosos que cismam em não se render ao "reinado" de Momo Jong Il, resta o exílio, isso se o engarrafamento não o deixar preso no trânsito do país do carnaval.
Aliás, essa gente toda está comemorando o que mesmo?
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