terça-feira, 30 de junho de 2015

República Federativa da Crise

A República no Brasil não nasceu de um movimento popular ou do anseio da maioria, mas de uma quartelada na qual os golpistas levantaram um marechal que estava na cama de pijamas para fazer a proclamação.
A partir do dia 15 de novembro de 1889, os primeiros dez anos anos da República podem ser descritos em termos como escândalos, arrocho salarial, clientelismo, aumento de impostos, repressão, desvio de verbas, impunidade, fraude eleitoral, fechamento do Congresso, estado de sítio, crimes políticos, confronto entre civis e militares.
O primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, mandou fechar o Congresso quando sofreu um processo de impeachment. Adoeceu e seu sucessor, o vice-presidente Floriano Peixoto, foi também o primeiro ditador.
Reprimiu revoltas, depôs governadores e até mesmo sua posse deveu-se a uma manobra inconstitucional, já que pelas regras da época deveriam ser convocadas eleições caso o presidente não completasse os dois primeiros anos de mandato, o que não ocorreu com Deodoro.
Passados os primeiros anos, a relativa calma da República Velha foi basicamente um arranjo entre oligarcas e coronéis, que escolhiam o presidente através da conhecida "política do café com leite".
A partir de 1922 os movimentos tenentistas, a coluna Prestes e finalmente uma revolta armada que originou o Estado Novo acabaram com a República Velha e jogaram o país em nova ditadura.
O Estado Novo terminou em 1945, mas Vargas retornaria eleito em 1950 e cometeria suicídio em 1954, depois de governar de crise em crise.
JK, venceu as eleições de 1955, num pleito que a UDN depois tentou impugnar. Juscelino governou com relativa calma, mas gastando caminhões de dinheiro na construção de Brasília, por exemplo, que ficaria pronta a tempo de ver a renúncia de Jânio Quadros, a posse conturbada de João Goulart, uma experiência parlamentarista fracassada e um golpe militar seguido de 20 anos de ditadura.
Terminada mais essa ditadura em 1985, o Brasil teve um presidente, Tancredo Neves, que até hoje não sabemos mesmo se morreu ou "foi morrido", o governo caótico de José Sarney que chegou a ter uma picareta arremessada em sua direção durante um protesto no Rio de Janeiro e um caçador de marajás que foi defenestrado do poder num processo de impeachment.
Veio Itamar, o Plano Real e os dois governos de FHC, com alguma tranquilidade e logo depois Lula, com seu primeiro governo marcado pelo escândalo do mensalão e o segundo pela pouca vergonha como método para eleger uma ex-terrorista como sua sucessora, a mesma que terminou de quebrar o país e entre um elogio à mandioca e outro às mulheres sapiens não sabe se termina o segundo mandato que conquistou gastando muito dinheiro dos outros, contando mentiras e espalhado calúnias.
O resto está no noticiário destes tempos em que vivemos.
Aonde quero chegar com essa narrativa aparentemente longa porém ainda assim resumida e incompleta da história do Brasil? Simples: o eterno país do futuro nunca chega ao futuro porque não consegue sair do lugar.
A política brasileira não é a arte de vencer obstáculos e encontrar consensos, mas de criar crises, subtrair numerário e inventar dificuldades para vender facilidades.
Nos poucos períodos da história em que o Brasil não estava em crise, debaixo de ditadura ou conspirando para criar uma, o país conseguiu avançar um pouco, mas esses períodos se contam nos dedos, porque o "normal" é a ruptura, o governo autoritário, o caos administrativo e econômico, o Estado inchado e ineficiente.
Sem que haja um mínimo de normalidade e o país não viva entregue a salvadores da pátria, "pais dos pobres", "mães do PAC" e outros personagens - maiores ou menores - que só podem existir onde domina o atraso, estaremos condenados a viver nesse dia da marmota de dimensões continentais que é a história do Brasil.
É tragédia, farsa e comédia ruim para ninguém botar defeito.
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