quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Não precisa inventar, basta não me roubar




Durante o primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, o vice-governador Darcy Ribeiro entendeu que com fome e/ou doente ninguém aprende nada na escola. Daí surgiu o projeto dos CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública).

Os CIEPs eram escolas feitas de concreto pré-moldado que dispunham de consultório médico e odontológico, piscina, biblioteca, cozinha, refeitório, salas de aula, descanso e recreação. As crianças entravam de manhã, tomavam café, assistiam aulas até mais ou menos meio-dia, almoçavam, descansavam, iniciavam atividades no período da tarde e às 17:00 voltavam para casa já depois de jantar e de tomar banho. 

Longe de mim ser brizolista. Pelo contrário, inclusive acho que o melhor jeito de fornecer educação à população é distribuindo vouchers para que estes escolham onde querem estudar no sistema privado. Mas já que no Brasil tomam meu dinheiro com a desculpa de "investir na educação pública", então dentro deste paradigma este foi um projeto que, enquanto funcionou, deu mais ou menos certo.

Talvez, inclusive, seja a única ideia do brizolismo - além da favelização - que tenha ido em frente, mesmo que depois tenha sido usada como outdoor para as pretensões presidenciais de Brizola, que passou a construir unidades na beira de estradas e locais de maior visibilidade, ao invés de utilizar critérios mais técnicos. Mas isso não tira o mérito do projeto em si.

Pois em 1986, o governador eleito Moreira Franco resolveu trocar os CIEPS - que eram chamados de "brizolões" - por unidades menores, que ele mesmo batizou de "moreirinhas". Resumo: os brizolões foram sendo sucateados, os moreirinhas nunca saíram do papel e já em 1991 o então presidente Fernando Collor quis aproveitar o projeto dos CIEPs, mas, ao contrário do que pretendia Moreira Franco, com unidades ainda maiores, que seriam chamadas de CIACs (Centros Integrados de Atendimento à Criança).

A despeito de críticas pela extrema atenção ao modelo arquitetônico - eram prédios modernosos - em detrimento do planejamento pedagógico, ao todo foram construídos 500 CIEPs e 400 CIACs. 

Com o tempo essas instituições foram perdendo a característica de escolas de tempo integral e os prédios passaram a ser utilizados em dois e até três turnos, aproveitando o atual - e falido - modelo de educação pública brasileiro. Brizola mesmo, em seu segundo governo no Rio de Janeiro, não deu mais a mesma atenção à sua principal vitrine, talvez desiludido em suas pretensões presidenciais.

O que desejo contando essa história? Simples: mostrar como o personalismo, a falta de continuidade de políticas públicas e de compromisso de governantes com a eficiência joga o dinheiro do pagador de impostos no lixo.

Caso essas escolas funcionassem até hoje como foram pensadas, milhares de jovens que a esquerda cisma em dizer que são "vítimas da sociedade" não seriam vítimas de ninguém e muito menos fariam vítimas. Lula com suas universidades de papel e seus títulos de doutor de fancaria poderia ter retomado esses projetos, mas como? E dar crédito para outro?

E da mesma forma ocorre com o transporte público, com a despoluição das águas, com as políticas de segurança pública e saúde: nada tem uma continuidade, o país está sempre de tempos em tempos inventando a roda quadrada. Até o Plano Real, que o PT por medo manteve no primeiro mandato de Lula foi pouco a pouco mandado às favas, até chegarmos nessa crise que tem nome, sobrenome e uma carranca para chamar de sua: Dilma Rousseff.

O Brasil não precisa de inventores, precisa de gente que faça o simples e faça certo. De preferência sem roubar os cidadãos nesse processo.
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