quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O bolivarianismo vai cair


O presidente Tancredo Neves foi reconhecidamente um dos arquitetos da redemocratização. Mas até ele reconhecia que acordos de gabinete sozinhos não resolvem nada.
Foi o povo na rua, nas diretas já e na campanha da sua eleição, que determinou o destino do regime militar. Duvido - e tenho certeza que Tancredo também duvidaria - que se as ruas permanecessem vazias os militares teriam saído do poder daquela forma e naquela época.
Aqueles eleitores do colégio eleitoral que elegeram Tancredo em 1985 apenas fizeram o que as multidões já haviam decidido. As convenções, as reuniões, as alianças partidárias, foram apenas parte do que é o papel dos políticos quando o povo bafeja o seu cangote: definir a forma pela qual a vontade da cidadania será atendida.

No último domingo, 25 de outubro de 2015, a Argentina foi às urnas praticamente destinada a eleger no primeiro turno o candidato apoiado pela presidente Cristina Kirchner. As pesquisas, os entendidos, os veículos de comunicação oficialistas sustentados com o dinheiro dos outros (soa familiar?) declaravam que seus candidatos sairiam vencedores de lavada.
As pesquisas de boca de urna já mostravam uma realidade diferente, mas quando os números oficiais saíram, a realidade se impôs. Seu candidato mal se manteve no primeiro lugar por dois pontos, sendo empurrado para um segundo turno. Fora isso o candidato apontado pela "presidenta" no dedaço para disputar o governo da província de Buenos Aires levou uma surra de uma novata da oposição e diversas províncias - algumas governadas pelo peronismo desde 1983 - foram para seus adversários.
Irritada, Cristina se trancou na residência oficial e ordenou que a justiça eleitoral segurasse os resultados oficiais até a madrugada de segunda-feira. Como não podia obrigar os eleitores, um a um, a mudarem sua escolha, resolveu lhes aplicar um castigo mesquinho e inócuo, coisa de tiranete bolivariano.
Na Venezuela, caso uma gigantesca fraude não ocorra, Nicolás Maduro se prepara para sofrer uma coça nas eleições parlamentares e no Brasil o PT pode esperar, porque 2016 será um ano duro nas eleições municipais.
Mas nada, nada acontece sem o povo. Deixar para políticos e arranjos de bastidor o destino do país é confiar em quem se vende por um cargo de segundo ou terceiro escalão ou por uma mala de pixulecos.
Por isso é primordial lembrar a lição de Tancredo, ao vencer naquele colégio eleitoral em 1985: não vamos nos dispersar.
Só o que os sanguessugas de palácio precisam para grudarem no poder e não saírem dali é que os cidadãos que produzem os deixem em paz.
Sem paz para eles. Até que caiam todos.
0 Comentários