quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Mãos limpas, depois o resto

O juiz Sérgio Moro escreveu um artigo sobre a operação mãos limpas, que mudou o cenário político na Itália ao processar figurões da República, no qual dizia que houve uma deslegitimação do sistema então em vigor, o que propiciou ímpeto às investigações.
O pós-guerra italiano estava dominado pela disputa ideológica entre os blocos democrático-liberal e socialista-comunista e a queda do bloco socialista arrefeceu o debate ideológico tornando as falhas e a corrupção do sistema partidário mais evidentes, o que levou à sua total implosão com partidos de todos os lados do espectro ideológico perdendo apoio e influência.
Note aqui o importante: o arrefecimento do debate entre socialistas-comunistas e seus adversários foi o que retirou a cortina de fumaça que abrigava a corrupção generalizada de ambos os lados.
Recentemente uma pesquisa demonstrou que a corrupção é a maior preocupação dos brasileiros e deve ser mesmo. O problema do Brasil nunca foi geração de riqueza ou recolhimento de impostos. Dinheiro tem de sobra, o problema é que existem muitos ralos e dragas que o levam a bolsos indevidos e não permitem que este seja devolvido na forma de serviços.
Paga-se muito, mas rouba-se mais ainda. O problema é que perdemos tempo demais discutindo questões subjetivas ou nos engalfinhando em guerras ideológicas que só servem a quem deseja se esconder na fumaça.
Não é curioso que somente na América Latina, viveiro de populistas e corruptos, esta guerra ideológica entre direita e esquerda seja realizada ainda nos termos do final do século passado? Que questões sociais acessórias façam a sociedade perder tanto tempo? E que a luta contra a corrupção que destrói vidas seja ridicularizada e rebaixada a "assunto de ignorante"?
Debater casamento, ciclovias, conceito do que é ou deixa de ser arte, liberação de drogas ou então se Marx foi deturpado ou não é uma verdadeira loucura num país onde pessoas moram em favelas no meio de lixo e valas negras, a violência urbana é digna de países em guerra, a saúde e a educação são vergonhas nacionais.
O que separa o Brasil da civilização é, sim, a corrupção sistêmica e disseminada em todos os níveis da sociedade. Desde o guarda que rouba do motorista para não aplicar multa até o senador pego roubando milhões para o partido, passando pelo professor do sindicato que recebe dinheiro para fazer greve e doutrinação e pelas ONGs que a despeito das duas últimas letras da sigla não vivem sem dinheiro governamental, a corrupção é o atraso do Brasil.
Todo o resto é diversionismo, é distração, serve apenas para que os de sempre continuem roubando o país.
Não é o caso de dizer que são todos "farinha do mesmo saco", porque uns são piores do que os outros e alguns menos piores do que estes, mas de exigir que o país deixe o show de lado e passe a cuidar do que importa.
O dinheiro do pagador de impostos não pode mais parar no bolso do sugador de recursos.
Depois cuidamos do resto.
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