domingo, 19 de junho de 2016

Veio porque quis

Longe de mim ser ufanista. Quem me conhece sabe que ninguém é melhor do que eu para malhar o Rio de Janeiro e o Brasil, nesta ordem. Não fosse uma citação indesejável ao - horresco referens - Chico Petralha, pediria até que "afastem de mim este cálice".
Mas tenho observado uma saraivada de diatribes dirigidas à olimpíada do Rio vindas do exterior que tem me deixado incomodado.
Nada de relativizar problemas e falências morais e nacionais envolvidas com o evento, afinal, o país do SUS e da educação do Paulo Freire - fora o resto - jamais poderia organizar sequer um mundial de peteca, quanto mais uma olimpíada.
Será um evento realizado numa cidade que boia em cocô e é rodeada por favelas com direito a valas negras, violência e terrenos baldios. Aliás, o Brasil é um terreno baldio à beira-mar cheio de garrafas pet, sacolas de supermercado e urubus.
Sou eu que afirmo isso, não preciso que um gringo venha me ensinar.
No Rio a violência é insuportável e impune. Já estive em Sderot, fronteira com a faixa de Gaza, e posso garantir que a sensação de segurança lá é maior do que na avenida Brasil.
No entanto o primeiro lugar onde fui assaltado na vida foi em Miami. Não quero com isso minimizar e comparar nada, já que os níveis de violência mundo afora são muito melhores do que no Brasil, desde que este "mundo afora" não seja o Iraque, a Síria, a Somália ou o Paquistão, mas isso não é vantagem alguma.
Só que também não é escusa para que um alemão ou americano venham se escandalizar com os perigos de sua vinda ao Brasil para a olimpíada, por exemplo.
O cara tem toda a razão de reclamar das epidemias, das águas imundas, do risco de ser assaltado, das obras inacabadas, do cacete a quatro, mas ele tem um opção que eu e nem os demais pagadores de impostos do Brasil tivemos: pode não vir.
Não pedi essas olimpíadas, me dá náusea ver como promessas não foram cumpridas, como o transporte e a poluição continuarão uma merda, como o dinheiro do país foi mal gasto em obscenidades supérfluas enquanto o povo morre de fome ou doença, como o real legado disso tudo será uma dívida que eu e as futuras gerações pagaremos.
No Brasil, onde se trabalha em torno de quatro meses por ano para pagar impostos e a única coisa que funciona bem e sem falhar é o sistema de arrecadação, todo cidadão é um escravo do governo.
Por isso mesmo quem tem o direito de se indignar com toda essa palhaçada é o cidadão que está pagando por esta bosta. Os demais podem meter o malho à vontade, é lógico, mas sem esquecer que tudo isso não passa de uma competição por medalhas, nada mais.
Por esta razão estou cagando solenemente para a impressão do "visitante". Se vai gostar ou não, se o cheiro de merda na linha vermelha vai incomodar seu nariz, se vai achar o metrô um trem de levar gado ou se vai perder algum evento porque ficou preso no engarrafamento.
E você, visitante, não me leve a mal, mas só digo isso porque quando tudo acabar você vai pegar um avião e voltar para sua casa. E a minha preocupação é com os que ficam, com os que não vão levar "péssimas impressões" para lugar nenhum porque as "péssimas impressões" são o seu cotidiano, já que moram nesse arremedo de país e não têm/tiveram escolha quanto a isso.
Você teve, veio porque quis. E não foi por falta de aviso.
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