terça-feira, 26 de julho de 2016

A carteirada do gari e o salário do promotor


Um promotor é um profissional importante para um país? Com toda a certeza, como neto de um promotor, tenho todos os motivos para admirar a profissão.
Juízes, delegados, defensores públicos, oficiais de justiça, todos, sem exceção, são profissionais importantes para qualquer país onde não seja o comissário indicado pelo ditador ou caudilho que resolve tudo na base da borrachada no lombo dos outros.
Mas médicos, enfermeiros, dentistas, professores, todos estes também são e talvez, com todo o respeito, até mais. O sistema judiciário é uma garantir para a sociedade democrática, mas, por definição, geralmente só atua onde a esta sociedade já falhou ou está prestes a falhar.
Professores formam cidadãos, quer dizer, assim que o escola sem partido for aprovado, porque por enquanto formam militantes. Médicos e enfermeiros salvam vidas. Dentistas, na sua atividade que reúne medicina, engenharia, mecânica, arte em uma só, contribuem para uma sociedade mais feliz e saudável.
Vivemos no país da carteirada, mas o curioso é que, dependendo da sua situação, até o gari pode dar uma. Experimenta ver o que acontece se o gari parar de recolher lixo na rua de um juiz, por exemplo. Quero ver o meritíssimo conseguir tirar o carrão da garagem.
O que quero dizer com isso tudo é que, no mínimo, estes profissionais e outros tantos merecem o mesmo respeito, consideração e reconhecimento que juízes, promotores, etc.
Mas não parece ser essa a opinião do nosso poder público.
Lendo dois editais publicados no Rio Grande do Sul, não pude deixar de ficar chocado com a discrepância de salários entre promotores e médicos. Um concurso, para o ministério público, oferecia um salário de 22 mil reais, enquanto outro, para diversas modalidades médicas, oferecia até 3,2 mil reais.
O que justifica essa diferença de mais ou menos 18 mil reais mensais? Quem me disser que um promotor tem mais responsabilidade ou um trabalho mais importante do que um cardiologista ou um gastroenterologista eu mandarei cancelar o plano de saúde e ir curar dor de cabeça no tribunal.
O que acontece é que o Brasil é um país erguido sobre uma estrutura antiquada, falida e bizarra. Somos o país dos "doutores" que não são doutores. Todo mundo quer fazer direito pra "prestar concurso", porque pagam os melhores salários.
Uma gigantesca estrutura burocrática representa um simulacro de justiça mas só existe na para justificar uma burocracia que vive deste mesmo simulacro de justiça. É o dilema do ovo e da galinha inútil e bem remunerado.
Isto porque enquanto o país for regulado, governado e dominado pela e para uma guilda, esse tipo de absurdo vai ser considerado normal e se perpetuar. Não interessa se é nível municipal, estadual, federal, é um absurdo de qualquer jeito.
Um promotor ganhar 3 mil seria mesmo um absurdo, mas um médico ganhar isso enquanto um promotor ganhar sete vezes mais é um absurdo maior ainda.
Passou do tempo da república dos doutores virar a república de todos.
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