quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A corte carnavalesca e a plebe que empurra a alegoria

Durante uma boa parte da minha vida eu gostei de carnaval. Tanto que participei dos desfiles das escolas de samba do Rio durante 11 anos. Três na União da Ilha do Governador, levado por amigos e 8 na Beija-Flor de Nilópolis, aquela pela qual sempre torci desde os 3 anos de idade.
Em 1998, há 20 anos, portanto, resolvi me afastar dos cortejos carnavalescos durante um insight que tive na frente do recuo da bateria na rua Salvador de Sá: mas por que cargas d'água estou aqui sendo empurrado para frente, com gente berrando nos meus ouvidos?
E não importa quem você seja - passista, ritmista, velha guarda - a menos que esteja no topo, sempre alguém vai berrar contigo ou te dizer para onde ir durante um desses desfiles.
O que ocorre na Sapucaí é uma repetição de micro universos onde pessoas muito pobres/comuns se tornam importantes durante 80 minutos. E para elas está bom.
Chegam em ônibus fretados pelas escolas de samba carregando fantasias quentes e pesadas em sacolas plásticas, ficam ali na concentração que ocorre na beira do Canal do Mangue, um curso de água poluída e fétida que corta o centro do Rio, esperam longas horas num pedaço escuro da avenida Presidente Vargas, recebem, aos berros, ordens para vestir aquelas geringonças e vão sendo empurrados até uma curva que dá para um mar de luz e som.
Já lá dentro, braços abertos para se exibir para os turistas nas frisas e arquibancadas, e para ricaços, celebridades e autoridades nos camarotes, continuam sendo empurrados aos gritos de "bora, porra", "vamos, caralho", "anda, merda", pelos diretores de ala e de harmonia, que também são apenas figurantes com um pouco mais de importância.
São pintores de parede, pedreiros, motoristas de ônibus, donos de pequenos comércios, funcionários de empresas, professores, que exercem com gosto ali naquele micro universo todo o seu micro-poder, que é a capacidade de mandar no "componente".
Estrelas mesmo só os artistas, mulheres plastificadas casadas com ricaços e as famílias dos bicheiros, que descem do camarote já na área de início de desfile (nem pensar em se misturar com o populacho na beira do canal de esgoto) e sobem para carros alegóricos ou posições de destaque cercados de pessoas com camisas de "apoio".
Mas na TV é uma coisa linda, todos na "festa popular".
A realidade é que o desfile das escolas do Rio de Janeiro, movido a dinheiro sujo de bicheiro misturado com dinheiro público, é uma festa repetitiva e elitista que se vende como cultura popular.
O pobre ali só serve para empurrar alegoria, empurrar componentes para frente, bater tambor, servir os comensais e fazer a segurança.
E o jet set faz pose de que gosta de batucada enquanto se empanturra de champanhe e camarão nos camarotes refrigerados.
Ficam ali observando aquilo como um zôo, ora correndo para as salinhas reservadas com serviço de bufê, ora se misturando rapidamente ao populacho para fingir que é "do povo".
Mas lavando bem as mãos com sabonete líquido depois.
Assim como lavam as mãos para a real essência daquela festa e da origem do dinheiro que a patrocina.
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